Um estudo com dados oficiais brasileiros encontrou associação entre violência sexual e aumento do risco de doenças cardíacas em mulheres. A pesquisa, publicada na revista Cadernos de Saúde Pública, aponta um acréscimo de 74% na probabilidade de ocorrência de problemas cardiovasculares entre vítimas femininas.
A análise identificou aumento na incidência de infarto do miocárdio e arritmias entre mulheres que sofreram violência sexual. Para angina e insuficiência cardíaca, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas em relação a mulheres que não relataram esse tipo de violência.
A investigação foi realizada por pesquisadores do programa de pós-graduação em Saúde Pública da Universidade Federal do Ceará a partir dos microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, do IBGE. A PNS é um levantamento representativo, com mais de 70 mil entrevistas, que inclui informações sobre ocorrência de violência sexual e sobre doenças cardíacas, permitindo o cruzamento dessas variáveis.
Para minimizar vieses, os pesquisadores aplicaram técnicas estatísticas que controlaram fatores como idade, cor/raça, orientação sexual, escolaridade e região de residência. Esses ajustes foram usados para isolar a associação entre violência sexual e risco cardiovascular.
O estudo sugere que o aumento do risco pode decorrer de uma combinação de fatores biológicos e comportamentais. Entre os mecanismos apontados estão quadros de ansiedade e depressão, alterações fisiológicas associadas ao estresse (como maior inflamação, variações na pressão arterial e na frequência cardíaca) e maior probabilidade de adoção de comportamentos de risco — por exemplo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de drogas, alimentação inadequada e sedentarismo.
A pesquisa também destaca a magnitude do problema: na PNS, 8,61% das mulheres relataram ter sofrido alguma forma de violência sexual ao longo da vida, contra 2,1% dos homens. Os autores alertam para a subnotificação, especialmente entre homens, o que pode contribuir para a ausência de um efeito semelhante nessa população no levantamento.
Os resultados reforçam o caráter de saúde pública da violência sexual e a necessidade de integrar atenção às vítimas com estratégias de prevenção cardiovascular. Segundo os autores, atuar em fatores de risco modificáveis pode ajudar a reduzir a carga de doenças cardíacas, que representam um dos maiores encargos para o sistema de saúde.



