A maior parte dos trabalhadores no Brasil aproveita o feriado de 1º de maio, Dia do Trabalhador. Nem todos, porém, conseguem parar: cuidadores de crianças, idosos e das tarefas domésticas seguem ativos mesmo em fins de semana e datas comemorativas.
Dados do IBGE mostram que as mulheres dedicam quase dez horas a mais por semana a atividades de cuidado e serviços domésticos em comparação aos homens. Essa carga de trabalho não remunerado incide sobre a rotina e o tempo livre de grande parcela da população feminina.
A professora Cibele Henriques, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisa o tema do cuidado há anos. Ela é cofundadora do Observatório do Cuidado e do Fórum de Mães Atípicas do Rio de Janeiro, iniciativas que promovem produção acadêmica e interlocução política sobre o assunto.
A sobrecarga de tarefas domésticas afeta tanto mulheres que se ocupam exclusivamente da família quanto aquelas que exercem atividade remunerada fora de casa e acumulam jornadas duplas. Em muitos lares, dias de folga são usados para limpar, lavar e adiantar compras, reduzindo o tempo destinado ao descanso pessoal.
A distribuição desigual do trabalho de cuidado tem base histórica e cultural, com normas sociais que associam desde a infância brinquedos e responsabilidades a meninos e meninas de formas distintas. Essas construções contribuem para que a esfera doméstica continue majoritariamente a cargo das mulheres.
A divisão de responsabilidades também varia por classe: mulheres de maior poder aquisitivo conseguem transferir parte dessas tarefas por meio da contratação de serviços, enquanto mulheres negras e de periferia frequentemente carregam a maior parte do ônus sem essa possibilidade.
Além da sobrecarga, especialistas apontam que a dependência econômica decorrente do trabalho não remunerado pode dificultar a saída de mulheres de relações abusivas, quando a manutenção do cuidado sobre filhos e de outros dependentes impede a autonomia financeira.
O envelhecimento da população brasileira traz outro desafio: o aumento previsto na demanda por cuidados a idosos ocorrerá em um momento em que ainda existem muitas crianças no país, pressionando redes de suporte familiar e público.
Entre as propostas para enfrentar o problema estão a ampliação do papel do Estado na oferta de serviços de cuidado e a criação de políticas públicas que estruturem redes de apoio, com o objetivo de reduzir o peso exclusivo sobre as mulheres.



