# PF aponta acesso clandestino a dados sigilosos por grupo ligado a Daniel Vorcaro
Um grupo ligado ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, teria obtido informações sobre investigações em curso contra ele por meio de acessos irregulares a sistemas restritos do Ministério Público Federal, da Polícia Federal, de polícias civis e do Banco Central. A apuração consta em relatório da Polícia Federal enviado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator da Operação Compliance Zero.
O documento, datado de 27 de fevereiro, teve o sigilo retirado após solicitação do presidente do STF, Edson Fachin. A operação investiga suspeitas de fraudes bilionárias relacionadas ao Banco Master e a Vorcaro.
Segundo a PF, a estrutura, chamada pelos investigadores de “A Turma”, funcionava como um núcleo paralelo de vigilância, coerção e segurança privada. O grupo teria recebido cerca de R$ 1 milhão mensais de Vorcaro.
Entre os integrantes está Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado no relatório também pelos nomes Felipe Mourão e Sicário. Ele é apontado como responsável por obter, de forma recorrente, dados protegidos por sigilo em órgãos públicos.
A investigação identificou indícios de uso de credenciais funcionais de terceiros para consultas em sistemas internos e retirada de documentos. O relatório tem 164 páginas e reúne registros de conversas por aplicativo entre os envolvidos, inclusive com servidores públicos.
A PF afirma que uma auditoria interna localizou acessos indevidos originados na delegacia da Polícia Federal em Juiz de Fora, em Minas Gerais. Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado apontado como participante do esquema, foi preso em 4 de março, durante a terceira fase da operação, em Belo Horizonte.
## Consultas sobre Banco Master e BRB
Os investigadores encontraram comprovantes de buscas feitas a partir do CPF de Vorcaro em sistemas do Ministério Público Federal. Foram localizados 15 procedimentos associados ao ex-banqueiro, dos quais 11 estavam sob sigilo.
Também foram realizadas pesquisas com os termos “BRB AND MASTER”, destinadas a localizar processos que mencionassem simultaneamente o Banco de Brasília e o Banco Master. O BRB é investigado por operações envolvendo a compra de títulos financeiros considerados fraudulentos emitidos pelo Master.
O material analisado pela PF indica que havia preocupação em manter essas consultas fora do conhecimento interno dos órgãos. Em uma das mensagens, um servidor teria tentado ocultar seu nome e o setor em que trabalhava antes de enviar dados sobre os procedimentos consultados.
No dia seguinte a uma das buscas, Mourão enviou a Vorcaro uma Notícia de Fato do MPF relacionada à apuração de possível crime contra o sistema financeiro nacional na tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB. Para a PF, o caráter reservado do documento reforça a suspeita de obtenção irregular.
A investigação também identificou indícios de acesso ao ePol, sistema oficial de polícia judiciária da Polícia Federal, restrito a policiais federais. Um registro de setembro de 2025 teria sido encaminhado a Mourão por Marilson Roseno, junto de cobranças relacionadas ao pagamento mensal do grupo.
## Referências a Interpol e FBI
O relatório ainda menciona uma imagem compartilhada em outubro de 2025 que exibia o logotipo da Interpol e referências a uma busca feita em nome de terceiro, além da espera por um relatório principal do FBI.
A Polícia Federal consultou a Interpol no Brasil, que informou que a aparência da tela reproduzida não correspondia aos mecanismos de pesquisa disponibilizados pela organização no país. A entidade, porém, não descartou que a imagem pudesse estar relacionada a ferramentas utilizadas por autoridades de outros países.
Para os investigadores, há a possibilidade de que dados da Interpol tenham sido consultados por sistemas estrangeiros ou por bancos de dados alimentados com informações da organização internacional. A PF ressaltou que, nessa hipótese, o usuário não seria brasileiro.
Os delegados sustentam que Vorcaro poderia buscar acesso formal aos autos das investigações por meio de sua defesa, mas teria recorrido a mecanismos ilegais de obtenção de informações.
## Liquidação do Banco Master
O Banco Central liquidou o Banco Master em 18 de novembro de 2025, citando grave crise de liquidez, comprometimento da situação econômico-financeira e violações às normas do sistema financeiro.
Antes da liquidação, o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, participou de negociações para tentar viabilizar a operação do Master. Os negócios entre as duas instituições deixaram o banco público em situação crítica, com necessidade estimada de R$ 8,8 bilhões.
O Banco Central vetou a venda do Master ao BRB. O relatório da PF também menciona suspeitas de relacionamento ilícito entre Vorcaro e dois diretores da autoridade monetária.
Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025 e novamente em março de 2026, por ordem do STF, permanecendo detido. Mourão também chegou a ser preso, mas morreu dois dias depois, após uma tentativa de suicídio na prisão.
Além da suposta espionagem, a PF aponta que o grupo teria sido usado para atos de violência, intimidação e coação. A investigação cita indícios de planejamento ou possível execução de agressões físicas e mobilização de pessoas armadas com o objetivo de pressionar e silenciar alvos específicos.



