segunda-feira, julho 13, 2026
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Pressões sociais e falhas estruturais levam mulheres à cesariana

Pesquisa do Unicef aponta que altos índices de cesarianas no Brasil decorrem de fatores psicológicos, sociais e estruturais, e não apenas de escolha individual.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que até 15% dos partos sejam por cesariana. No Brasil, entretanto, a taxa ultrapassa 60% e chega perto de 90% na rede privada, colocando o país entre os três com maior proporção de cesarianas no mundo.

O estudo do Unicef revisitou dados da Fiocruz de 2014, que indicavam que sete em cada dez gestantes desejavam parto normal no início da gravidez. A pesquisa mais recente, intitulada “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, entrevistou 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde em São Paulo (SP) e Belém (PA), em serviços públicos e privados.

Em São Paulo, em 2024, 56,19% dos nascimentos foram por cesariana, com 71,05% na rede privada. Em Belém, a taxa geral foi de 69,28%, chegando a 80,41% no setor particular. Nas duas capitais existem leis que autorizam a gestante a solicitar cesariana no momento do parto.

O levantamento identificou influências favoráveis e barreiras ao parto normal. No plano psicológico, o medo da dor contribui para a preferência pela cesariana, enquanto a percepção de uma recuperação mais rápida favorece a opção pelo parto vaginal. Essas crenças são reforçadas por relatos e experiências familiares, que moldam a visão social sobre o parto.

Entre usuárias do Sistema Único de Saúde, experiências familiares muitas vezes valorizam o parto normal devido às dificuldades no pós-operatório. A ausência de rede de apoio também leva muitas mulheres a optar por uma recuperação mais rápida. No setor privado, por outro lado, há maior preparo individual e condições financeiras que possibilitam a contratação de equipes específicas para melhorar a experiência de parto.

Outra barreira observada majoritariamente entre usuárias do SUS é a escolha da cesariana motivada pelo desejo de laqueadura. A pesquisa aponta falta de orientação sobre métodos contraceptivos reversíveis de longa duração, como implante subdérmico e DIU, e sobre a possibilidade de realizar a laqueadura após parto vaginal ou fora da gestação.

No aspecto estrutural, as equipes de assistência pré-natal mantêm grande autoridade sobre a decisão da via de nascimento. O estudo registrou informações superficiais sobre o trabalho de parto durante o pré-natal, desconhecimento sobre a existência de Plano de Parto, baixa adesão a atividades de orientação, início tardio do pré-natal e acolhimento inadequado de adolescentes. No setor privado, houve relatos de gestantes que trocaram de profissional diante da recusa em realizar parto vaginal.

O acesso à analgesia é outro ponto de distinção: amplamente disponível na rede privada e restrito a poucos hospitais de referência no SUS. A disponibilidade de manejo da dor, farmacológico ou não, é considerada relevante para a dignidade do parto.

O Unicef faz diversas recomendações aos gestores públicos e privados, entre elas:
– ampliar o acesso à analgesia e a métodos não farmacológicos de alívio da dor;
– qualificar o pré-natal com informações sobre fases do trabalho de parto, manejo da dor, Plano de Parto, direitos e planejamento reprodutivo, incluindo orientações sobre laqueadura após parto vaginal e contraceptivos de longa duração;
– incluir parceiros e acompanhantes nas orientações pré-natais, além de reconhecer e ampliar a atuação de doulas;
– mobilizar mães, avós e referências locais, valorizando saberes tradicionais e fortalecendo conteúdo confiável nas plataformas digitais;
– expandir políticas públicas de apoio antes, durante e depois do parto, como busca ativa por gestantes, garantia de recepção e registro do Plano de Parto, fortalecimento da vinculação ao local de parto, ampliação de centros de parto normal e humanizado e maior oferta de analgesia e laqueadura após parto vaginal;
– revisar modelos que favorecem cesarianas sem indicação clínica, por meio de segurança jurídica para decisões baseadas em evidências, capacitação sobre direitos e cuidado respeitoso, ajustes em modelos de financiamento que não incentivem cirurgias desnecessárias e monitoramento transparente de indicadores maternos e neonatais.

O Unicef também lançou a campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”, voltada a gestantes, famílias, redes de apoio e profissionais de saúde, com objetivo de reduzir pressões externas sobre a decisão da mulher e promover experiências de parto seguras e respeitosas.

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