sábado, maio 30, 2026
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Cirurgia duplica risco de complicações cardíacas em pacientes com doença de Chagas

Pacientes com doença de Chagas que apresentam arritmias graves e passam por procedimentos cardíacos têm risco de morte pós-operatória significativamente maior do que portadores de outras cardiopatias, aponta estudo da Faculdade de Medicina da USP. A análise identificou aumento de cerca de 2,4 vezes no risco de óbito e uma mortalidade global de 36% nesse grupo.

A pesquisa revisou prontuários de intervenções realizadas no Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da USP entre 2011 e 2020. Foram avaliados 378 procedimentos em 288 pacientes. Os resultados foram publicados na revista The Lancet Regional Health – Americas.

Os autores constataram que a maior mortalidade não se explica por maior ocorrência de arritmias em si, já que a incidência dessas arritmias não foi superior à observada em outras doenças cardíacas. Em vez disso, o aumento do risco foi associado a fatores não cardíacos e à maior complexidade técnica das cirurgias nesses pacientes.

Um dos achados foi a necessidade frequente de acesso epicárdico — pela superfície externa do coração — em quase 80% das operações em indivíduos com Chagas. Em comparação, pacientes com cardiopatia isquêmica precisaram desse acesso em cerca de 15% dos casos. O uso do acesso epicárdico eleva a dificuldade do procedimento, a probabilidade de complicações intraoperatórias e a instabilidade clínica, o que ajuda a explicar a maior mortalidade observada.

Os pesquisadores ressaltam a importância de um acompanhamento pós-alta mais rigoroso da insuficiência cardíaca e de comorbidades nesses pacientes, e sugerem que protocolos específicos de seguimento podem ser necessários para reduzir eventos adversos tardios.

O trabalho tem limitações relacionadas à estrutura do centro avaliador. Houve restrições de amostragem que dificultam detectar associações modestamente expressivas. Exames como o mapeamento eletroanatômico não foram realizados em todos os pacientes por limitações orçamentárias. Também não houve monitoramento padronizado da rotina medicamentosa ao longo do período de observação, que se estendeu em média por até oito anos por paciente. Protocolos de acompanhamento variaram entre os casos por motivos além dos clínicos, e a duração desigual do seguimento reduz a precisão na detecção de eventos tardios, especialmente entre pacientes residentes em regiões remotas com barreiras socioeconômicas e logística para cuidado a longo prazo.

Contexto epidemiológico: estima-se que cerca de 7 milhões de pessoas vivam com doença de Chagas e outras 100 milhões residam em áreas de risco. Ocorrem entre 30 mil e 40 mil novos casos por ano, e menos de 10% dos infectados foram diagnosticados. A doença está presente em 21 países da América Latina e de forma esparsa na América do Norte, Europa, Japão e Austrália.

A doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido principalmente pelo contato com fezes ou fluidos do inseto triatomíneo. A infecção pode provocar lesões em órgãos como o coração e o trato intestinal, levando a disfunção cardíaca e arritmias graves. Um dos tratamentos para arritmias é a ablação por cateter, procedimento que destrói áreas do tecido cardíaco responsáveis pela arritmia e é usado também em outras cardiopatias.

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