sábado, maio 30, 2026
InícioSaúdeMortalidade materna no Brasil: centenas de mulheres continuam morrendo a cada ano

Mortalidade materna no Brasil: centenas de mulheres continuam morrendo a cada ano

O Brasil ainda registra centenas de mortes maternas por ano durante a gestação ou até 42 dias após o término da gravidez.

A razão de mortalidade materna no país foi de 56,4 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos, segundo dados de 2024 do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/Datasus) consultados no Observatório da Saúde Pública. No ano, foram contabilizados 1.347 óbitos. A meta nacional é reduzir esse índice para 30 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030.

A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) estima que cerca de nove em cada dez dessas mortes poderiam ser evitadas.

O dia 28 de maio é marcado como o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, data dedicada a reforçar ações voltadas à atenção integral à saúde da mulher gestante e puérpera.

Prevenção e causas
A atenção pré-natal de qualidade é apontada como fator-chave para diminuir riscos. Unidades de referência em atendimento de alto risco, como a Maternidade Escola da UFRJ, oferecem acompanhamento especializado e monitoramento para gestantes com comorbidades.

Entre as causas diretas mais comuns de óbito materno no Brasil estão as síndromes hipertensivas, hemorragias, infecções puerperais e complicações relacionadas ao aborto. As causas obstétricas diretas respondem por 66% das mortes maternas no país.

Casos e acompanhamento
Na rede pública, gestantes com hipertensão ou histórico de diabetes gestacional têm sido orientadas a mudanças alimentares, submetidas a exames e mantidas em acompanhamento constante para reduzir riscos durante a gestação.

Equipe multidisciplinar e autonomia da enfermagem
A atuação integrada de médicos, enfermeiros obstétricos e outros profissionais de saúde é considerada fundamental para um atendimento seguro. A possibilidade de atuação de enfermeiros obstétricos em partos de baixo risco está respaldada pela Lei 7.498/1986, que disciplina o exercício profissional da enfermagem.

Experiências locais mostram expansão da assistência obstétrica em municípios de pequeno porte. No Hospital Municipal de Viçosa (AL), referência para nove municípios da região, o número de partos anuais aumentou de cerca de 80–90 para aproximadamente 600 após mudanças na organização do serviço e na atuação da equipe de enfermagem. Profissionais com atuação desde 2009 informaram participação em milhares de partos na região.

Puerpério e saúde mental
O período pós-parto (puerpério) é considerado crucial para a prevenção de óbitos maternos. Muitos problemas surgem nesse período e podem agravar-se se não forem identificados precocemente.

Sinais de alerta no pós-parto que exigem atenção incluem sangramento vaginal excessivo, febre, falta de ar, dor torácica, cefaleia intensa refratária a analgésicos, alterações visuais e pressão arterial persistentemente elevada. A recomendação é que a primeira consulta puerperal ocorra precocemente, idealmente nos primeiros sete dias e, no máximo, até dez dias após o parto.

A saúde mental materna também integra o acompanhamento puerperal. Transtornos no pós-parto podem manifestar-se por tristeza marcante, ansiedade, insônia, medo de cuidar do bebê, sensação de incapacidade, exaustão extrema e dificuldade de vínculo. Em casos mais graves, podem ocorrer ideias de autoagressão, risco de violência contra o recém-nascido e sintomas psicóticos, exigindo intervenção imediata.

Políticas públicas: Rede Alyne
Em 2024, o governo federal lançou a Rede Alyne, programa de reestruturação da antiga Rede Cegonha, com metas de reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027 e diminuir em 50% a mortalidade entre mulheres pretas no mesmo período. A iniciativa visa ampliar o cuidado humanizado e integral à gestante e ao bebê, com atenção às desigualdades étnico-raciais e regionais.

A Rede Alyne foi nomeada em homenagem a Alyne Pimentel, jovem que morreu em 2002 aos 28 anos, grávida de seis meses, vítima de falhas no atendimento na rede pública do município de Belford Roxo (RJ).

LEIA TAMBÉM

MAIS POPULARES