# Planos de Lula e Flávio Bolsonaro divergem sobre política externa, defesa e comércio
Os programas de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apresentam prioridades distintas para a política externa brasileira. Enquanto Lula propõe ampliar a articulação com países do Sul Global e diversificar parcerias internacionais, Flávio Bolsonaro defende maior proximidade com Estados Unidos, Israel e Argentina.
O tema ganhou espaço específico nos documentos das candidaturas. O plano do petista dedica quase seis páginas à política externa, enquanto o texto do candidato do PL reserva cerca de três páginas ao assunto.
Lula aponta um cenário global marcado por conflitos, pressões sobre o direito internacional e disputas geopolíticas. Sua proposta prevê uma atuação diplomática independente, sem alinhamentos automáticos, e a ampliação das relações comerciais e políticas com diferentes regiões do mundo.
Já Flávio Bolsonaro critica a orientação internacional adotada pelo atual governo e propõe uma diplomacia centrada no que classifica como pragmatismo e interesse nacional. O plano prevê recompor e fortalecer relações com países considerados parceiros tradicionais, como Estados Unidos, Israel e Argentina.
## Defesa e indústria militar
As duas candidaturas relacionam a política externa à capacidade de defesa do país.
O programa de Lula prevê o fortalecimento da indústria nacional de defesa, com continuidade de investimentos em projetos estratégicos. O texto cita recursos de R$ 20,4 bilhões executados desde 2023 por meio do Novo PAC em iniciativas do setor.
Entre os projetos mencionados estão a entrega de sete caças Gripen F-39, incluindo a produção da primeira aeronave em território brasileiro, a aquisição de três cargueiros KC-390, a construção de quatro fragatas — uma delas já em operação — e a fabricação de 226 veículos blindados.
A proposta de Flávio Bolsonaro prevê investimentos nas Forças Armadas e incentivo à inovação militar, especialmente nas áreas de drones e inteligência artificial. O candidato também defende que o nível de investimento seja compatível com a participação do Brasil em blocos e fóruns internacionais.
## Sul Global, Brics e relações comerciais
O plano de Lula estabelece uma política externa de caráter universalista, com o objetivo de ampliar mercados para produtos e serviços brasileiros e firmar novos acordos comerciais. A proposta também prevê maior aproximação com o Brics, o G20 e países do Sul Global.
O Brics reúne Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Já o G20 congrega as maiores economias do planeta, além da União Europeia e da União Africana.
A candidatura petista também propõe aprofundar as relações com países africanos, considerando a relevância crescente do continente na ordem internacional e seus vínculos históricos e culturais com o Brasil.
Flávio Bolsonaro afirma que pretende ampliar mercados e atrair investimentos estrangeiros, com negociações envolvendo China, União Europeia, Estados Unidos e países asiáticos. Seu programa coloca produtores e trabalhadores brasileiros como referência para a condução da política comercial.
## Minerais críticos e terras raras
Os candidatos apresentam estratégias diferentes para minerais críticos e terras raras, insumos considerados estratégicos para setores como tecnologia, defesa e transição energética.
Lula propõe uma política específica para organizar as cadeias produtivas desses recursos, ampliar o processamento interno e evitar que o país se limite à exportação de matérias-primas. A proposta inclui mapeamento, beneficiamento e agregação de valor aos minerais.
Flávio Bolsonaro defende a atração de capital e tecnologia estrangeiros para desenvolver o setor no Brasil, por meio de parcerias internacionais.
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China. As reservas brasileiras são estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas, o equivalente a aproximadamente 23% do total conhecido. Os Estados Unidos têm cerca de 1,9 milhão de toneladas, perto de 2% das reservas globais.
A disputa por esses minerais ganhou importância nas relações entre Estados Unidos e China, devido ao peso dos materiais nas cadeias de alta tecnologia, equipamentos militares e fontes de energia limpa.
## América do Sul e Mercosul
A integração regional é um dos pontos centrais do programa de Lula. O documento prevê o fortalecimento do Mercosul e de outros mecanismos de cooperação sul-americana, além da defesa da América do Sul e do Caribe como áreas de paz.
O plano associa a integração regional à estratégia de projeção internacional do Brasil em um cenário de instabilidade global.
## Tarifas dos Estados Unidos
As tarifas impostas pelo governo de Donald Trump a produtos brasileiros também aparecem no debate entre os candidatos.
O plano de Lula critica a condução da política externa durante o governo de Jair Bolsonaro e aponta perda de espaço diplomático e enfraquecimento de iniciativas regionais naquele período. O documento menciona ainda os impactos das medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos desde 2025.
Flávio Bolsonaro atribui as sanções comerciais a divergências entre os governos brasileiro e norte-americano. Em seu programa voltado ao agronegócio, o candidato propõe buscar soluções diplomáticas para restrições impostas por Estados Unidos, China e Europa aos produtos brasileiros.
O candidato do PL também defende uma reorientação administrativa do Itamaraty, com ênfase na atuação técnica e profissional da diplomacia.
## Entrada na OCDE
Outro objetivo destacado no plano de Flávio Bolsonaro é a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
A entidade reúne 38 países e atua na produção de estatísticas, estudos e recomendações de políticas públicas. Segundo a proposta, a entrada na organização exigiria adequação de normas nacionais a padrões internacionais e poderia contribuir para melhorias na governança de empresas estatais e em mecanismos de combate à corrupção.



