A Bolívia completou nesta sexta-feira (5) o 36º dia consecutivo de protestos, com mais de 80 bloqueios em rodovias pelo país. A Administradora Boliviana de Rodovias (ABC) registrou 81 pontos de interdição, concentrados em torno da capital La Paz e nos departamentos de Cochabamba, Potosí, Oruro, Santa Cruz e Chuquisaca.
As manifestações, que reúnem camponeses, indígenas, professores e mineiros, começaram como críticas à qualidade do combustível fornecido pelo governo e se ampliaram após a promulgação de uma lei sobre terras. Organizações rurais dizem que a norma favorece o agronegócio e prejudica pequenos proprietários.
Os bloqueios provocaram desabastecimento em diversas regiões, com falta de combustíveis, alimentos e medicamentos em cidades afetadas. A crise política se intensificou com prisões de lideranças, sob acusações que incluem terrorismo e instigação pública para delinquir.
Entre os detidos estão a ex-senadora do Movimiento al Socialismo (MAS) Simone Quispe; Justino Apaza, secretário executivo da Federação de Conselhos de Bairros de La Paz; e Yesenia Varga, dirigente da Federação Carrasco, de camponeses de Cochabamba. A Procuradoria também pediu a prisão de dirigentes como Vicente Salazar, da organização Los Ponchos Rojos, e de Mario Argollo, presidente da Central Operária da Bolívia (COB). Os pedidos contra Salazar e Argollo foram posteriormente revogados pelo judiciário.
As prisões ocorrem em meio a um apoio público dos Estados Unidos ao governo do presidente Rodrigo Paz. O secretário de Defesa norte-americano, Pete Hegseth, manifestou respaldo às ações bolivianas e afirmou que os EUA acompanham a situação. Washington e o Executivo boliviano têm colocado a mobilização sob a alegação de vínculos com o narcotráfico.
Em razão da pressão gerada pelos bloqueios, houve mudanças no gabinete. No dia 2 de junho, os ministros da Defesa, Marcelo Salinas, e da Educação, Beatriz García, apresentaram renúncia. Em 21 de maio, o ministro do Trabalho, Edgardo Morales, já havia deixado o cargo. O ministério da Defesa passou a ser ocupado por Ernesto Justiniano, ligado ao combate ao narcotráfico e envolvido, em maio, na reaproximação com autoridades dos Estados Unidos que culminou no retorno de atividades da Drug Enforcement Administration (DEA) à Bolívia — agência que havia sido expulsa do país em 2008.
No plano legislativo, o Congresso anulou recentemente uma lei que restringia o uso do estado de exceção e agora avalia um novo projeto sobre o tema enviado pelo Executivo. O texto já foi aprovado no Senado e segue em análise na Câmara de Deputados.



