A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025, revelou um esquema de fraudes envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o banco privado Master, abalando a confiança na instituição pública do Distrito Federal. O impacto chegou ao cotidiano dos cerca de 5 mil empregados do BRB.
A investigação levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, no início de março, e à suspensão, por decisão judicial, do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa (PHC). PHC foi preso preventivamente na quarta fase da operação, em 16, quando a Polícia Federal realizou novas diligências.
Funcionários do BRB — entre concursados, terceirizados e estagiários — vêm sendo convocados para prestar depoimento a auditores e policiais federais. Analistas que tiveram acesso às negociações com o Master foram apontados como fontes de informações relevantes para as apurações.
As negociações envolveram a compra de bilhões de reais em carteiras de crédito do Master e a intenção pública do BRB de adquirir parte do banco por R$ 2 bilhões. O Banco Central rejeitou essa operação dois meses antes de determinar a liquidação extrajudicial do Master, e a sequência de eventos motivou a abertura da Operação Compliance Zero.
A crise institucional se refletiu no fluxo de clientes nas agências, que passaram a procurar esclarecimentos sobre a solidez do banco e riscos para aplicações. A Previdência BRB informou dispor de patrimônio segregado de mais de R$ 4,39 bilhões, com recursos separados dos patrocinadores e instituidoras, incluindo empresas do conglomerado do BRB.
Em números, o banco administra mais de R$ 80 bilhões em ativos e atende a mais de 10 milhões de clientes. O banco digital Nação BRB Fla chegou a reunir quase 4 milhões de clientes. Cerca de 3 mil aposentados dependem de planos de saúde e previdência ligados ao BRB, e aproximadamente 400 aprovados no concurso de 2022 aguardam convocação, agora condicionada à resolução da crise.
A agência de classificação Moody’s rebaixou a nota do BRB, citando falta de clareza sobre o impacto da compra de ativos do Master e a ausência de um plano de recuperação consolidado. A agência apontou a necessidade de uma “injeção relevante de capital” para reduzir o risco de dificuldades no cumprimento de compromissos.
Institucionalmente, o BRB tem divulgado comunicados ao mercado e avisos aos acionistas, além de contratar auditorias para apurar prejuízos decorrentes da compra das carteiras do Master. O novo presidente da instituição, Nelson de Souza, não compareceu a uma audiência convocada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Distrito Federal; a comissão aprovou posteriormente a convocação obrigatória para depoimento em data a ser definida.
No plano político e administrativo, a governadora Celina Leão, que assumiu o cargo após a saída de Ibaneis Rocha em março, reuniu-se com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da situação do BRB. A diretoria do banco informou que aguarda as conclusões das auditorias e a análise do balanço consolidado de 2025 pelos acionistas.
Analistas e documentos públicos apontam quatro alternativas frequentemente citadas para enfrentar a crise: aporte de capital pelos sócios (incluindo recursos públicos do GDF), empréstimos junto a instituições financeiras ou ao Fundo Garantidor de Créditos, intervenção federal com incorporação por banco público federal, ou venda de ativos/privatização. Em paralelo, o BRB enfrenta exigências regulatórias e risco de multas por parte do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários.
A reportagem tentou contato com a assessoria do BRB e com a defesa de Paulo Henrique Costa, sem retorno até a publicação. Dados sobre prazos de assembleia e calendário de decisões societárias permanecem acompanhados pelas autoridades e pelo mercado.



