terça-feira, março 31, 2026
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Estudo aponta que desigualdades sociais elevam consumo de ultraprocessados por famílias

Pesquisa do Unicef mostra que conveniência, preço e laços afetivos impulsionam consumo de ultraprocessados entre crianças em comunidades urbanas

Um estudo divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na terça-feira (31) aponta que fatores sociais — como sobrecarga das cuidadoras, preço e componentes afetivos — contribuem para o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas de três cidades brasileiras.

A pesquisa ouviu cerca de 600 famílias em Guamá (Belém, PA), Ibura (Recife, PE) e Pavuna (Rio de Janeiro, RJ).

Embora 84% dos entrevistados tenham declarado preocupação em oferecer alimentação saudável, alimentos ultraprocessados estavam presentes no lanche das crianças em metade dos domicílios. Em 25% das casas, algum ultraprocessado fazia parte do café da manhã.

Os itens mais frequentes nas residências foram iogurte com sabor, embutidos, biscoito recheado, refrigerante e macarrão instantâneo.

Definição e riscos

O estudo define ultraprocessados como produtos industriais que combinam ingredientes naturais com aditivos químicos — corantes, aromatizantes e emulsificantes — para obter baixo custo, longa durabilidade e sabores intensos. Evidências científicas relacionam o consumo desses produtos a maior risco de obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, depressão e câncer.

Sobrecarga das mulheres

A pesquisa identificou concentração das tarefas alimentares entre as mães: 87% delas compraram e ofereceram alimentos às crianças, e 82% foram responsáveis pelo preparo. Entre os pais, 40% compraram alimentos, 27% cozinharam e 31% ofereceram comida às crianças.

Conhecimento e rotulagem

Houve confusão sobre quais alimentos se enquadram como ultraprocessados. Produtos como iogurtes com sabor e nuggets preparados em airfryer foram apontados por muitos como saudáveis.

A nova rotulagem frontal também mostrou alcance limitado: 26% dos entrevistados disseram não saber o que significam os avisos sobre alto teor de sódio, açúcar e gorduras saturadas. Além disso, 55% afirmaram não observar esses avisos e 62% declararam nunca ter deixado de comprar um produto por causa deles.

Preço e escolhas

A percepção de preço orienta escolhas alimentares. Para 67% das famílias, sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes são baratos. Legumes e verduras foram considerados caros por 68% dos entrevistados; frutas por 76%; e carnes por 94%.

Componente afetivo

Entrevistas aprofundadas revelaram componente afetivo nas escolhas: muitas famílias associam produtos ultraprocessados a memórias positivas de infância, especialmente itens com embalagens que trazem desenhos ou personagens, o que facilita a aceitação pelas crianças.

Papel das escolas

O relatório identifica as escolas como espaços estratégicos para promover alimentação saudável. As famílias demonstraram grande confiança na merenda escolar, o que reforça a importância da oferta alimentar nas unidades de ensino e do uso das escolas como canais de orientação nutricional.

Recomendações do estudo

– Fortalecer regulação: avançar na limitação da publicidade infantil, tributação de ultraprocessados e promoção de ambientes escolares livres desses produtos.
– Ampliar creches e escolas em tempo integral: reduzir sobrecarga de cuidados e fortalecer redes de apoio, com impacto positivo sobre hábitos alimentares.
– Reforçar orientação nos serviços de saúde: ampliar aconselhamento nutricional desde a gestação para evitar introdução precoce de ultraprocessados.
– Apoiar iniciativas comunitárias: incentivar hortas, feiras, atividades esportivas e redes locais de apoio para ampliar o acesso a alimentos saudáveis.
– Educar sobre rotulagem frontal: promover campanhas e ações educativas que expliquem o significado dos avisos e acompanhem a efetividade do modelo de rotulagem.
– Investir em comunicação para mudança de comportamento: desenvolver mensagens simples e práticas que ajudem as famílias a identificar “falsos saudáveis” e a melhorar métodos de preparo.

O relatório conclui que medidas combinadas de regulação, educação e apoio comunitário são necessárias para reduzir a exposição de crianças aos ultraprocessados e promover hábitos alimentares mais saudáveis.

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