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Programa Caminhos da Reportagem alerta para riscos do consumo de ultraprocessados

O consumo de alimentos ultraprocessados pelos brasileiros mais que dobrou desde a década de 1980, passando de 10% para 23% das calorias diárias, segundo série de artigos publicada na revista The Lancet. A pesquisa internacional envolveu mais de 40 cientistas e foi coordenada por equipes da Universidade de São Paulo (USP).

A USP também é a origem do conceito de ultraprocessados. Em 2009, pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) criaram a classificação NOVA, que divide os alimentos em quatro grupos: 1) in natura ou minimamente processados (como frutas, arroz e feijão); 2) ingredientes culinários processados (azeite, manteiga, sal); 3) alimentos processados (milho em lata, sardinha enlatada, pão de padaria); e 4) ultraprocessados (biscoitos recheados, achocolatados, refrigerantes e outras bebidas adoçadas).

A classificação NOVA passou a destacar o papel do sistema alimentar e do grau de processamento na expansão do sobrepeso, da obesidade e de doenças crônicas, em contraponto às explicações centradas apenas em escolhas individuais.

O programa Caminhos da Reportagem exibe o episódio “Ultraprocessados na Mesa dos Brasileiros” na segunda-feira (30), às 23h, na TV Brasil. O episódio aborda a origem do conceito de ultraprocessados, orienta sobre como identificá-los nos rótulos e discute impactos sociais e sanitários do seu consumo. Também traz exemplos de mudanças de hábitos e iniciativas escolares que priorizam alimentos in natura no âmbito do Programa Nacional de Alimentação Escolar.

Levantamento conjunto da Fiocruz Brasília e do Nupens calculou um custo superior a R$ 10 bilhões à saúde e à economia brasileiras atribuído ao consumo de ultraprocessados. O estudo estima que até 57 mil mortes por ano poderiam ser evitadas caso esse consumo fosse eliminado.

No campo das políticas públicas, a reforma tributária publicada em dezembro de 2023 definiu uma transição tributária entre 2026 e 2033. Produtos ultraprocessados ficaram de fora do imposto seletivo criado para desestimular itens nocivos à saúde ou ao meio ambiente; apenas bebidas açucaradas receberam uma taxa extra. Para que a cobrança sobre refrigerantes entre em vigor, ainda é necessária a aprovação de uma lei complementar que fixe a alíquota.

Além de medidas fiscais, organizações de saúde e sociedade civil apontam educação alimentar e restrições à publicidade como estratégias para reduzir o consumo desses produtos. A experiência de limites à propaganda do cigarro é citada como precedente bem-sucedido.

Organizações internacionais destacam preocupação especial com crianças: a exposição precoce a ultraprocessados pode afetar o desenvolvimento de sistemas como o nervoso, o imunológico e o digestivo e aumentar o risco de doenças crônicas ao longo da vida.

Casos de atenção clínica ilustram o impacto do problema. Um adolescente acompanhado em serviço hospitalar desenvolveu pré-diabetes e foi encaminhado a um programa de atenção a crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade. Com acompanhamento nutricional e mudanças na alimentação familiar, o paciente teve melhora e recebeu alta após cerca de um ano de acompanhamento.

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