segunda-feira, março 30, 2026
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Unesco alerta: 273 milhões de crianças fora da escola em todo o mundo

A Unesco divulgou nesta quarta-feira (25) o Relatório de Monitoramento Global da Educação (Relatório GEM) 2026, que traça o panorama mundial da educação e antecipa desafios para a meta de 2030.

O documento aponta que a população fora da escola voltou a crescer. Depois de cair 33% entre 2000 e 2015, o número de pessoas fora do sistema educacional subiu pelo sétimo ano seguido, aumentando 3% desde 2015 e alcançando 273 milhões em 2024. Atualmente, uma em cada seis crianças, adolescentes e jovens está fora da escola. Além disso, apenas dois terços dos jovens concluem o ensino secundário.

A Unesco identifica como principais fatores o crescimento populacional, crises diversas e cortes orçamentários. O relatório também alerta que a estimativa de jovens fora da escola pode ser subdimensionada em pelo menos 13 milhões ao considerar dados humanitários suplementares em dez países mais afetados por conflitos.

O Relatório GEM 2026 é a primeira parte da série “Contagem Regressiva para 2030”, composta por três publicações: 2026 (acesso e equidade), 2027 (qualidade e aprendizagem) e 2028–2029 (relevância).

Matrículas e acesso
Em 2024 havia 1,4 bilhão de estudantes matriculados no ensino primário e secundário. Desde 2000, as matrículas cresceram 327 milhões (30%) nessas etapas. A pré-escola registrou alta de 45% e o ensino pós‑secundário cresceu 161% no mesmo período. Na média global, mais de 25 crianças passam a ter acesso à escola a cada minuto.

O relatório cita exemplos de ampliações expressivas: a taxa de matrícula no ensino primário da Etiópia subiu de 18% em 1974 para 84% em 2024. Na China, o acesso ao ensino superior aumentou de 7% em 1999 para mais de 60% em 2024.

Educação pré‑primária
Ao medir se uma criança de 5 anos está em sala de aula, o indicador global aponta 75% de cobertura. No entanto, apenas 60% dos alunos do ensino fundamental informaram ter tido pelo menos um ano de educação pré‑primária, o que sugere que o sucesso declarado na educação infantil pode estar inflado por crianças que já ingressaram no ensino fundamental sem terem passado pela pré‑escola.

Permanência e impacto de crises
O avanço na permanência escolar desacelerou em quase todas as regiões desde 2015. A África Subsaariana é a mais afetada, com retrocessos acentuados atribuídos principalmente ao crescimento demográfico e a crises, incluindo conflitos. O relatório também aponta milhões de crianças fora da escola no Oriente Médio, após o fechamento de muitas escolas em consequência de ações militares envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã.

Houve, contudo, progressos em vários países que reduziram drasticamente as taxas de abandono desde 2000. Entre as melhorias destacadas estão Madagascar e Togo (crianças); Marrocos e Vietnã (adolescentes); Geórgia e Turquia (jovens). A Costa do Marfim reduziu pela metade a exclusão nas três faixas etárias analisadas.

Comparações regionais e nacionais entre 2000 e 2024 mostram diferenças no ritmo de avanço: o México reduziu as taxas de evasão mais rapidamente que El Salvador; Serra Leoa ampliou a conclusão do primário em ritmo superior ao da Libéria; e o Iraque aumentou a conclusão do ensino médio em ritmo maior que a Argélia.

Conclusão escolar e repetência
As taxas de conclusão aumentaram nas últimas décadas. No primário, subiram de 77% para 88%; no final do ensino fundamental, de 60% para 78%; e no ensino médio, de 37% para 61%. No ritmo atual, a conclusão do ensino médio alcançaria 95% apenas em 2105.

As taxas de repetência caíram desde 2000: 62% no primário e 38% no ensino médio inferior. Ainda assim, muitas crianças entram tarde na escola e repetem anos em países de baixa e média-baixa renda, resultando em conclusões com atraso de idade. A diferença entre conclusão “no tempo certo” e conclusão final no ensino médio inferior é de 4 pontos percentuais globalmente e chega a 9 pontos em países de baixa renda, tendência crescente desde 2005.

ODS 4 e metas nacionais
O ODS 4 da Agenda 2030 busca garantir que, até 2030, todas as crianças completem o ensino primário e secundário gratuito, equitativo e de qualidade. Desde 2022, 80% dos países comunicaram metas nacionais para ao menos alguns dos oito indicadores do ODS 4. A Unesco monitora esse progresso anualmente e ressalta a importância do contexto nacional na definição de metas e políticas.

Equidade e inclusão
Na média global, as disparidades de gênero no ensino primário e secundário foram reduzidas nos últimos anos. Em várias localidades, reformas sustentadas favoreceram a aproximação entre meninos e meninas.

A proporção de países com leis de educação inclusiva cresceu de 1% para 24% desde 2000. A inclusão expressa em leis para crianças com deficiência passou de 17% para 29%. Entre 2020 e 2025, a porcentagem de países que adotaram uma definição de educação inclusiva subiu de 68% para 84%, e a parcela que expandiu essa definição além da deficiência aumentou de 51% para 69%.

Entre 1998 e 2023, em 158 países a proporção de pessoas com 12 anos de escolaridade obrigatória avançou de 8% para 26%. Em 130 países, a duração média da educação gratuita subiu de 10 para 10,8 anos.

Financiamento
Nos últimos 25 anos houve expansão significativa de mecanismos de financiamento que beneficiam populações desfavorecidas no ensino básico e médio, com uso de transferências a governos subnacionais, escolas, alunos e famílias, tendo crescido de quatro a seis vezes.

Programas de merenda escolar dobraram de escala. Na pré‑escola, 54% dos países transferem recursos a instituições que atendem crianças desfavorecidas; 26% fazem transferências às famílias via ministério da Educação; e 55% via outros ministérios.

No ensino superior, aproximadamente 1 em cada 3 países não cobra mensalidades em universidades públicas; quase metade subsidia alojamento estudantil; 4 em cada 10 apoiam transporte; e menos de 3 em cada 10 subsidiam livros didáticos.

Recomendações
Com o prazo de 2030 se aproximando, a Unesco recomenda que a definição de metas passe a integrar de forma mais firme o planejamento e o orçamento nacionais, levando em conta taxas de progresso anteriores e experiências de outros países.

O relatório defende uso mais eficiente de dados de pesquisas e censos para monitorar participação e equidade. Também enfatiza a necessidade de produzir estatísticas mais precisas sobre participação e aproveitamento escolar, e de monitorar políticas públicas além de seus resultados.

A Unesco sugere ainda que intercâmbios entre países sejam valorizados, mas adaptados à realidade local, e que o desenvolvimento de políticas seja orientado pela equidade e pela avaliação de resultados.

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