A queima de fogos na virada do ano, tradição em muitas cidades, provoca prejuízos a grupos sensíveis ao barulho, como pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), crianças e idosos. Especialistas apontam que os estouros podem causar efeitos imediatos e de curta duração, mas também repercussões que se estendem por dias.
Pessoas no espectro autista costumam ter hipersensibilidade auditiva. O ruído intenso pode desencadear crises sensoriais, com alterações comportamentais que variam desde ansiedade e tentativa de fuga até comportamentos agressivos. Além disso, o estresse gerado pelos fogos pode provocar insônia que perdura por alguns dias.
Do ponto de vista fisiológico, a exposição a barulhos altos eleva a resposta de estresse: há aumento de adrenalina, aceleração cardíaca e elevação da pressão arterial. Esses sinais afetam não apenas o indivíduo com TEA, mas também sua rede familiar, que sofre com a necessidade de adaptação e cuidados imediatos.
Várias cidades brasileiras vêm adotando alternativas à queima tradicional de artefatos com estampido. Opções como fogos sem estampido, shows de luz e apresentações com drones preservam o aspecto visual das celebrações sem impor ruído intenso à população sensível. Essas alternativas ampliam a possibilidade de participação coletiva sem custos sensoriais para parte da população.
Apesar de leis municipais que proíbem fogos ruidosos em algumas localidades, a fiscalização frequentemente é insuficiente. Em cidades onde a proibição já vigora há anos, ainda há relatos de soltura de artefatos barulhentos em comemorações, especialmente no Ano Novo, o que evidencia lacunas na aplicação das normas.
Além de pessoas com TEA, idosos e bebês também são afetados. Idosos com demência podem apresentar surtos de delírio, alucinações e piora do sono, da memória e do raciocínio após exposição a ruídos intensos. Bebês, que necessitam de períodos de sono mais longos, têm sono prejudicado quando acordados repetidamente pelos fogos.
Medidas de minimização incluem o uso de ruído branco no ambiente, abafadores auriculares para crianças maiores e manter janelas fechadas ou afastar a pessoa sensível do local da queima quando o espetáculo for luminoso, sem estampido. A difusão e adoção de alternativas silenciosas também são apontadas como forma de reduzir os impactos sem eliminar as comemorações.
Dados apontam prevalência de autismo em cerca de 3% da população mundial. Nem todas as pessoas com TEA apresentam alterações sensoriais auditivas, mas a existência desses casos reforça a necessidade de reflexão pública sobre como as tradições são mantidas. Ajustes em celebrações e maior rigor na fiscalização das normas sobre fogos podem reduzir sofrimento desnecessário e ampliar a inclusão nas festividades.



