terça-feira, março 31, 2026
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Cerrado em Foco: Ativistas Buscam Proteção Igualitária ao Bioma da Amazônia

Enquanto se aproxima a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em Belém (PA), há um apelo crescente de cientistas e ambientalistas para que o Cerrado receba a mesma atenção política que a Floresta Amazônica. Esse bioma é considerado essencial, pois abriga as nascentes de oito das doze bacias hidrográficas do Brasil, sendo conhecido como “berço das águas”.

Estudos indicam que o Cerrado é fundamental no combate às mudanças climáticas, uma vez que possui um grande potencial de armazenamento de água. Aproximadamente 40% da água potável do país provém dessa região. No entanto, o desmatamento, incentivado por práticas do agronegócio, tem agravado a diminuição das vazões hídricas na área.

Esta é a segunda matéria da série especial “Fronteira Cerrado”, da Radioagência Nacional, que analisa o impacto do desmatamento nesse bioma sobre os recursos hídricos do Brasil. Novos conteúdos serão apresentados ao longo da semana.

A pesquisa intitulada “Cerrado: o Elo Sagrado das Águas do Brasil”, divulgada neste ano, avaliou as principais bacias hidrográficas do Cerrado e revelou que a região perdeu 27% de sua vazão mínima em comparação com a década de 1970. Isso equivale a uma perda significativa de água, estimada em 30 piscinas olímpicas a cada minuto.

Os dados apontam que a redução das vazões se deve a dois fatores principais: 56% da diminuição é atribuída ao desmatamento e 44% às mudanças climáticas. As projeções indicam que, até 2050, o Cerrado poderá perder mais um terço de suas reservas aquáticas, o que afetará todos os outros biomas.

A análise do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostra que o Cerrado ainda é o bioma com maior perda no Brasil, superando a Amazônia. Apesar de haver uma queda de 11% no desmatamento entre agosto do ano passado e julho deste ano, a situação continua alarmante. Enquanto o Código Florestal limita o desmatamento na Amazônia a 20%, no Cerrado essa margem é de até 80%.

Embora o governo federal reconheça os riscos que a situação apresenta à segurança hídrica do Brasil, não há planos imediatos para rever o Código Florestal. Há, no entanto, um avanço na elaboração de um decreto para regulamentar Áreas Prioritárias para Conservação de Águas do Cerrado, visando instalar uma nova categoria de preservação.

O governo também prioriza projetos de recuperação de áreas degradadas, além de incentivos fiscais e linhas de crédito facilitadas para produtores que preservarem mais do que a legislação exige.

O Programa Cerrado do Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) aponta que o ministério enfrenta dificuldades em reduzir o desmatamento, uma vez que a responsabilidade sobre as autorizações é dos estados. As secretarias de meio ambiente frequentemente são vistas como facilitadoras do agronegócio.

Entidades do setor agrícola foram contatadas sobre os estudos, mas nenhuma se manifestou sobre o tema. A Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) expressou não reconhecer os dados da pesquisa citada e enfatizou que cabe ao Poder Executivo estabelecer políticas para proteger o Cerrado e promover um desenvolvimento sustentável. A Aprosoja, principal entidade de produtores de soja, reafirmou sua posição contrária ao desmatamento ilegal, contanto que esteja em consonância com as leis ambientais.

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