Na ilha de Fernando de Noronha, uma professora de 31 anos enfrentava rotina exaustiva ao cuidar do filho com transtorno do espectro autista (nível de suporte 2) e transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Mãe solo, ela convivia com crises intensas de agitação e agressividade do garoto, acumulando cuidados com o filho atípico, outro filho e o emprego, o que resultou em quadro de ansiedade generalizada e problemas de sono.
Em março, o menino iniciou tratamento com canabidiol (CBD), e a família relatou redução nas crises e melhora do comportamento. O atendimento foi viabilizado pelo Projeto Noronha, parceria entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital.
O projeto realizou dois mutirões em fevereiro e maio com foco em assistência integrativa e disseminação de conhecimento. Nesses eventos foram oferecidas 126 consultas médicas gratuitas e distribuídos 221 frascos de óleo de canabidiol.
A iniciativa também conseguiu a cessão de um terreno pela Administração da ilha para a construção de uma sede. O espaço será destinado ao acompanhamento contínuo de famílias neuroatípicas, oferecendo orientação, acolhimento e suporte multidisciplinar.
Além do acompanhamento das crianças, o programa prevê atenção específica às mães, muitas vezes as únicas responsáveis pelo cuidado integral. O projeto passou a oferecer atendimento e acompanhamento para essas mulheres, visando reduzir a sobrecarga e suas consequências à saúde mental.
Entre as mães atendidas está a presidente da associação local, que tem um filho de sete anos com TDAH e transtorno do processamento sensorial. Ela desenvolveu depressão e transtorno de ansiedade generalizada em razão da sobrecarga do cuidado. Após iniciar tratamento com canabidiol em fevereiro, a mulher e o filho apontaram melhora no controle da ansiedade, sono e comportamento escolar.
Problema estrutural de saúde pública
Fernando de Noronha conta com apenas uma unidade pública de média complexidade, o Hospital São Lucas. Casos que exigem maior complexidade dependem de redes de atendimento no continente, principalmente em Recife, distante 545 km da ilha. Esse isolamento contribui para alta prevalência de transtornos como depressão, ansiedade, insônia e condições neurológicas.
Relatório do segundo mutirão, realizado pela Abecmed em maio, registrou demanda persistente por atendimento psicológico. Entre os 58 pacientes que relataram questões psíquicas, 70,6% buscaram ajuda para problemas de saúde mental. Outros achados apontaram neurodivergências em 41,3% dos atendidos, dor crônica e osteomuscular em 29,6%, alterações do sono em 32% e condições neurológicas em 6,8%. Sintomas mais frequentes incluíram ansiedade (25 relatos), insônia (16), dor crônica (11), alterações de humor (3), crises de pânico (3), bruxismo (3) e dificuldades de concentração (2).
No campo do neurodesenvolvimento, o levantamento identificou 10 casos de transtorno do espectro autista, 10 de TDAH, 2 de transtorno opositor desafiador e 2 em investigação para TEA/TDAH.
A organização sem fins lucrativos responsável pelo projeto está coletando dados para avaliar o impacto social e econômico das intervenções e pretende ampliar pesquisas na região.
Evidências sobre canabidiol
Na última década houve crescimento do interesse pelo uso medicinal da cannabis. Estudos desde 2012 indicam potencial do extrato de cannabis em tratamentos neurológicos e psiquiátricos. Pesquisas apontam que canabinoides apresentam propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes e têm sido investigados em condições como epilepsia, esquizofrenia e depressão.
No contexto do autismo, evidências e relatos clínicos indicam que o canabidiol pode reduzir agressividade, agitação e problemas de sono. Parte dessas observações associa benefício ao efeito modulador sobre o sistema endocanabinoide, que participa na regulação da filtragem sensorial e do equilíbrio fisiológico. Relatos clínicos do projeto também destacam que, ao contrário de alguns antipsicóticos usados para controle comportamental, o CBD tende a produzir menos sedação, o que facilita a participação das crianças em terapias multidisciplinares.
O Projeto Noronha planeja manter mutirões regulares a cada três meses e consolidar uma rede permanente de suporte para as famílias da ilha.



