domingo, maio 24, 2026
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Profissionais de saúde superam obstáculos para levar vacinação a comunidade indígena

O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Purus, unidade descentralizada do SUS, atende cerca de 11 mil indígenas de nove etnias — Apurinã, Jamamadi, Jaminawa, Kaxarari, Kaxinawá, Huni Kuin, Madiha, Kulina e Manchineri. As comunidades estão distribuídas em 155 aldeias, com populações que variam entre 30 e 300 habitantes. Idiomas de três troncos linguísticos convivem com o português ou são o principal meio de comunicação.

As aldeias ficam em áreas do Acre, Amazonas e Rondônia, e o acesso depende das condições climáticas. Em períodos favoráveis, o transporte ocorre por caminhonete ou barco. Em situação adversa, a chegada às comunidades exige quadriciclos, botes menores ou helicópteros.

O modelo de atenção é descentralizado e busca respeitar crenças e práticas tradicionais. Como não há unidades de saúde em todas as aldeias, o trabalho parte de polos-base regionais. Equipes itinerantes fazem incursões que podem durar até 40 dias, deslocando-se para aplicar vacinas e realizar busca ativa de faltosos.

A manutenção da cadeia de frio é um desafio constante. Frascos de vacina precisam ficar entre 2ºC e 8ºC para manterem a eficácia. Para isso são utilizados freezers instalados em embarcações, caixas térmicas e bobinas de gelo durante os deslocamentos.

O planejamento das ações é feito a partir de um censo vacinal que reúne dados familiares e permite estimar quantas doses serão necessárias em cada aldeia. A partir desse levantamento, equipes transferem do estoque apenas o quantitativo previsto para a ação diária, selecionam locais centrais para vacinação e, quando necessário, realizam atendimento domiciliar.

Em maio, profissionais que atuam em saúde indígena e em áreas de difícil acesso participaram de capacitação em Rio Branco (AC). O curso abordou normas técnicas atualizadas, armazenamento, aplicação e descarte de vacinas, fundamentos imunológicos, manejo de eventos adversos e técnicas de comunicação com as comunidades. A iniciativa contou com a participação da CapacitaImune e teve oferta pela farmacêutica MSD.

A MSD fornece quatro vacinas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI): HPV, hepatite A, varicela e Pneumo-23. A atividade em Rio Branco foi a quarta capacitação promovida pela empresa para profissionais que trabalham em territórios remotos, com o objetivo de harmonizar práticas e adaptá-las ao contexto local.

O PNI já inclui mais de 20 vacinas e segue ampliando o calendário; nos últimos meses foram incorporadas imunizações contra dengue e vírus sincicial respiratório. Grupos vulneráveis, como a população indígena, mantêm recomendações diferenciadas: influenza e covid-19, por exemplo, são ofertadas anualmente a esses grupos independentemente da idade.

Um episódio recente ilustra a complexidade logística: em 2024, a seca recorde na Amazônia dificultou a navegação e contribuiu para um surto de influenza em uma aldeia, que resultou na morte de duas crianças. Diante do quadro, houve mobilização de esferas federal e estadual para antecipar a vacinação contra a influenza naquele território e realizar transporte aéreo das doses, com ações de contingência para evitar novas mortes.

Além das vacinas do calendário, populações de difícil acesso — indígenas, ribeirinhos, quilombolas e rurais — também têm recebido imunização contra a raiva, em razão do maior risco de exposição por mordidas de animais silvestres.

O trabalho em campo exige longos períodos longe de casa e navegações extensas, mas é apontado como essencial para ampliar a cobertura vacinal e reduzir riscos sanitários nas comunidades. A equipe que cobriu a capacitação viajou a convite da MSD.

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