terça-feira, maio 12, 2026
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Cerco a Bamako põe à prova Aliança dos Estados do Sahel

Grupos jihadistas, entre eles o braço da Al-Qaeda no Sahel, cercam Bamako e ameaçam a estabilidade da Aliança dos Estados do Sahel (AES), formada por Mali, Níger e Burkina Faso. O Sahel é a faixa que separa o deserto do Saara das florestas tropicais da África Subsaariana.

A AES surgiu após golpes militares que, a partir de 2020, levaram ao poder governos com viés nacionalista e em processo de ruptura com a influência francesa na região. Desde então, os países da aliança têm promovido mudanças institucionais, políticas e econômicas.

Em 25 de abril, ataques coordenados do Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos (JNIM) e da Frente de Libertação do Azawad (FLA) resultaram na tomada de cidades no norte do Mali, incluindo Kidal, e na morte do ministro da Defesa, Sadio Camara. Fontes locais informaram que os grupos instalaram bloqueios em vias de acesso a Bamako, dificultando o abastecimento da capital e pressionando o governo do presidente Assimi Goïta.

O cerco, que vinha se intensificando há meses, agravou problemas logísticos em Mali. Autoridades e analistas advertem para o risco de uma desintegração territorial semelhante à observada na Líbia, com potencial para desestabilizar Burkina Faso, Níger e outros países da África Ocidental, como Gana e Costa do Marfim.

A região tem mais de 420 milhões de habitantes e concentra riquezas minerais relevantes — ouro, urânio e outros recursos —, ao mesmo tempo em que enfrenta níveis elevados de pobreza e uma proliferação de grupos insurgentes islâmicos. Observadores também apontam para uma mudança no fluxo de recrutamento jihadista, com deslocamento de foco do Mediterrâneo para o Sahel.

A AES divulgou nota condenando os ataques e atribuiu-os a uma conspiração contra a dinâmica de sua luta pela soberania regional. Em resposta aos golpes de 2020, a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) expulsou Mali, Níger e Burkina Faso, deixando os membros da AES ainda mais isolados, sobretudo por se tratarem de países sem litoral.

No plano internacional, o governo de Bamako apresentou em 2022 ao Conselho de Segurança da ONU uma acusação formal contra a França, afirmando que violações de espaço aéreo teriam sido usadas para beneficiar grupos armados no Sahel e para repassar material bélico. Paris rejeitou as acusações e afirmou que suas operações na região, realizadas a pedido de governos locais até serem interrompidas, visavam combater o terrorismo, em que já morreram dezenas de soldados franceses ao longo de quase uma década.

Com o recuo da presença francesa, os Estados da AES passaram a buscar apoio militar junto à Rússia, incluindo assistência ligada ao grupo conhecido como Wagner/Africa Korps. Relatórios de analistas de conflitos indicam, porém, que a intervenção russa não conseguiu frear a ofensiva dos grupos armados; o anúncio de um bloqueio total a Bamako pelo JNIM obrigaria as forças malianas a concentrar esforços na defesa da capital, deixando outras áreas menos protegidas.

O JNIM é identificado como um braço da Al-Qaeda no Sahel, empenhado em implantar um projeto de Estado regido pela Sharia. A FLA reúne facções tuaregues que reivindicam um território próprio para a população nômade tuaregue; esses movimentos têm histórico de relacionamento com a França e, segundo especialistas, ganharam relevância recente em razão do ressurgimento de rotas de tráfico de armas e de pessoas na região.

Analistas destacam também o interesse externo pelos recursos do Sahel, como ouro e urânio, e apontam para a existência de atores regionais e internacionais com motivações para enfraquecer governos nacionalistas. Parte das análises indica ainda conexões entre redes de financiamento no Golfo e movimentos armados que acabam por atender a interesses geopolíticos mais amplos.

O presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, figura como um dos líderes mais visíveis da AES e sustenta uma narrativa de resistência ao que considera práticas neocoloniais, defendendo o fortalecimento das forças armadas como condição para o desenvolvimento nacional.

A ofensiva sobre Mali e o cerco a Bamako reforçam o cenário de crise no Sahel, com implicações humanitárias e geopolíticas que podem repercutir em toda a África Ocidental.

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