sexta-feira, maio 15, 2026
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Bloqueios e manifestações pressionam presidente da Bolívia a renunciar

Bloqueios em rodovias ao redor de La Paz desafiam o governo de Rodrigo Paz, que tomou posse há seis meses, pondo fim a quase duas décadas de governos de esquerda na Bolívia.

A mobilização começou em reação à promulgação da Lei 1.720, aprobada pelo Parlamento em março e sancionada em 10 de abril. A norma prevê a conversão de pequenas propriedades tituladas em propriedades médias, o que permitiria o acesso a créditos bancários. Setores do agronegócio apoiaram a medida, que o governo apresentou como instrumento para dinamizar a agricultura e reativar uma economia afetada por crises cambiais e escassez de dólares.

Movimentos indígenas e camponeses apontaram riscos à integridade de terras comunitárias e ao futuro de pequenos proprietários, temendo deslocamentos, especulação imobiliária e uso de hipotecas sobre áreas coletivas. Em resposta à promulgação, organizações populares e indígenas iniciaram, no início de abril, marchas rumo a La Paz a partir dos departamentos amazônicos de Pando e Beni.

As marchas percorrem mais de 400 quilômetros e já duram quase 30 dias. Milhares de manifestantes bloqueiam acessos à capital. Ao longo das últimas semanas, o protesto agregou categorias como professores e mineiros. A Central Operária Boliviana (COB) decretou greve geral por tempo indeterminado, denunciou repressão e prisões de lideranças e incluiu entre suas reivindicações um aumento de 20% no salário mínimo.

Em 12 de maio, o presidente Rodrigo Paz revogou a Lei 1.720 e concedeu prazo de 60 dias para que o Parlamento discuta um novo texto. Organizações camponesas, porém, consideraram a revogação insuficiente e cobraram que uma nova lei fundiária seja debatida e aprovada no Legislativo.

Ao longo da crise, o governo acusou líderes dos protestos de financiamento por parte de redes de narcotráfico e vinculou os atos ao ex-presidente Evo Morales. Morales negou participação e afirmou haver um plano de ação do governo que incluiria operação militar, alegação que aumentou a tensão política. O Executivo também intensificou o discurso contra os mobilizados e anunciou medidas de ordem pública.

A atual crise tem raízes anteriores: em dezembro de 2025, o governo editou o Decreto 5.503, que eliminou subsídios aos combustíveis. A decisão levou a novas ondas de bloqueios e manifestações, e o Executivo acabou repondo os subsídios em janeiro de 2026.

No plano institucional, o governo criou uma comissão para avaliar mudanças na Constituição Plurinacional e encaminhou um pacote de projetos para revisar leis sobre petróleo e gás, investimentos, mineração, regras eleitorais, segurança nacional e organização do Judiciário, além de propostas para reduzir o tamanho do Estado. O Executivo justificou a agenda como necessária para controlar a inflação e atrair investimentos, inclusive em projetos de exploração de recursos como o lítio.

Setores oposicionistas e representantes sindicais acusam a administração de privilegiar capitais estrangeiros e aplicar um ajuste neoliberal que prejudica a maioria da população. A disputa política e social segue sem solução imediata, enquanto bloqueios e negociações se mantém em paralelo ao risco de nova escalada.

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