Pesquisadoras e pesquisadores da Fiocruz divulgaram resultados preliminares de um estudo que apontam níveis elevados de mercúrio em gestantes da Terra Indígena Munduruku, no Médio Tapajós (PA). As concentrações médias de mercúrio nos cabelos dessas mulheres chegam a 9,1 µg/g, cerca de 4,5 vezes acima do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (2 µg/g).
O levantamento faz parte do Estudo Longitudinal de Gestantes e Recém-Nascidos Indígenas Expostos ao Mercúrio na Amazônia, conduzido pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz). Os dados foram apresentados em 3 de junho, durante o Rio Nature & Climate Week, no Rio de Janeiro.
Foram monitoradas 195 gestantes. Entre elas, 97% registraram níveis de mercúrio acima do limite considerado seguro. O valor máximo detectado em uma mulher chegou a 39,9 µg/g, equivalente a 20 vezes o tolerável. Até o momento, 134 dessas mulheres já deram à luz e os recém-nascidos também fazem parte do acompanhamento da pesquisa. Cerca de 90% dos bebês nasceram com contaminação detectável por mercúrio, cuja passagem ocorre pela placenta.
As concentrações médias entre os recém-nascidos estão em 5,8 µg/g, aproximadamente três vezes o limite da OMS. Um caso extremo registrou 30,8 µg/g, ou 15 vezes o valor considerado seguro. A metodologia prevê o monitoramento do crescimento e dos marcos do neurodesenvolvimento das crianças ao longo dos primeiros anos de vida, e os pesquisadores trabalham com a hipótese de que a exposição pré-natal ao mercúrio pode comprometer esses parâmetros.
Além do estudo com gestantes, investigações anteriores iniciadas em 2019 em três aldeias de Sawré Muybu já haviam identificado contaminação por mercúrio em moradores de diferentes faixas etárias. No total, foram identificados 751 casos de indígenas com contaminação confirmada por exame laboratorial; desse total, 318 casos são do Pará e 378 são de Roraima, associados ao povo Yanomami.
A contaminação está ligada à prática de garimpo de ouro, atividade que utiliza mercúrio para separar o metal dos sedimentos e que contamina rios e a cadeia alimentar aquática. O consumo de peixes contaminados é a principal via de entrada do mercúrio no organismo humano nas comunidades ribeirinhas e indígenas da região.
Dados do MapBiomas indicam que cerca de 92% da área garimpada no Brasil — legal ou ilegal — concentra-se na Amazônia, e cerca de 85% dessas áreas destinam-se à extração de ouro. O garimpo provoca impactos socioambientais que vão além da contaminação por mercúrio: desmatamento, violência, conflitos com povos tradicionais, trabalho escravo e práticas de sonegação e lavagem de ouro têm sido documentados.
Estudos recentes apontam que Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) têm sido usadas para comercializar ouro originado em atividades ilegais, com efeitos sobre terras indígenas e áreas protegidas. Especialistas também observam que, embora a atividade seja formalmente regulada por legislação como o Código de Mineração e a Lei nº 7.805/1989, flexibilizações no licenciamento ambiental e falta de transparência na implementação de salvaguardas enfraquecem o controle e favorecem a expansão de práticas danosas.
Órgãos de fiscalização e o Ministério Público estadual assinalam a responsabilidade dos entes públicos nos distintos elos desse ciclo, destacando a fragilidade de licenciamento e a carência de estrutura institucional para fiscalização em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano, fatores que agravam a exposição de populações indígenas ao mercúrio.
Pesquisadores e autoridades defendem a incorporação dos achados em estatísticas oficiais e a melhoria dos sistemas de notificação e vigilância para casos de contaminação por mercúrio, de modo a orientar políticas de saúde pública e medidas de proteção às comunidades afetadas.



