segunda-feira, abril 20, 2026
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Estudo aponta ligação entre dengue e síndrome de Guillain-Barré

Infectados pelo vírus da dengue apresentam risco aumentado de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas semanas seguintes à infecção, aponta estudo da Fiocruz Bahia em parceria com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, publicado no New England Journal of Medicine.

Segundo a pesquisa, o risco de SGB é 17 vezes maior nas seis semanas após a dengue e chega a 30 vezes nas duas primeiras semanas após o início dos sintomas. Em termos absolutos, estima-se que, para cada 1 milhão de casos de dengue, cerca de 36 pessoas possam evoluir para a SGB.

Os pesquisadores analisaram três grandes bases do Sistema Único de Saúde: internações hospitalares, notificações de dengue e registros de óbitos. Entre 2023 e 2024 foram identificadas mais de 5 mil hospitalizações por SGB, das quais 89 ocorreram nas semanas seguintes ao início de sintomas de dengue.

O estudo ressalta que a dengue se espalhou mais rapidamente no mundo do que outras doenças transmitidas por mosquitos, com aproximadamente 14 milhões de casos globais registrados em 2024. No Brasil, as epidemias são frequentes: em 2024 o país superou 6 milhões de casos prováveis.

Diante desses achados, os autores recomendam que gestores de saúde incorporem a SGB como complicação pós-dengue nos protocolos de vigilância. Também orientam que sistemas de saúde se preparem, durante surtos, para identificar precocemente sinais de fraqueza muscular e garantir disponibilidade de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa devem ser acionadas nas semanas seguintes aos picos de dengue.

Do ponto de vista clínico, o documento indica que profissionais de saúde devem suspeitar de SGB em pacientes com histórico recente de dengue (até seis semanas) que apresentem fraqueza nas pernas ou parestesias. O diagnóstico precoce é considerado fundamental, já que os tratamentos específicos — imunoglobulina ou plasmaférese — são mais efetivos quando iniciados rapidamente. Os autores também enfatizam a importância da notificação dos casos às vigilâncias epidemiológicas municipais e estaduais.

Não existe tratamento antiviral específico para a dengue; o manejo atual baseia-se em hidratação e suporte clínico. Por isso, o estudo reforça que a prevenção continua sendo a principal estratégia, com foco no controle do mosquito Aedes aegypti e na vacinação contra a dengue. A vacinação pode reduzir substancialmente o número de casos e, consequentemente, o número absoluto de complicações graves como a SGB.

Contextualizando, a relação entre arboviroses e complicações neurológicas já havia sido observada durante a epidemia de Zika em 2015-2016, quando houve aumento de casos de SGB em adultos e associação do vírus com malformações congênitas. A dengue pertence à mesma família de vírus do Zika.

A SGB é uma condição na qual o sistema imunológico ataca os nervos periféricos, provocando fraqueza que costuma começar nas pernas e pode subir para braços e face. Em casos graves, a doença compromete a respiração, exigindo apoio ventilatório. A maioria dos pacientes se recupera, mas a recuperação pode levar meses ou anos e deixar sequelas permanentes em alguns casos.

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