quarta-feira, março 25, 2026
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Pesquisadores brasileiros recebem prêmio por pesquisa sobre Alzheimer

Pesquisadores brasileiros vêm ganhando destaque na busca por novos caminhos contra a doença de Alzheimer. Nos últimos meses, dois grupos nacionais receberam prêmios internacionais por avanços na área.

Mychael Lourenço, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi agraciado com o ALBA‑Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, destinado a cientistas em meio de carreira com contribuições relevantes. Wagner Brum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), foi selecionado pela Alzheimer’s Association como Next One to Watch, reconhecimento para jovens pesquisadores promissores.

Alzheimer continua sendo um dos principais desafios da medicina: há poucos tratamentos capazes de retardar sua progressão e nenhuma cura estabelecida. O quadro clínico costuma começar com perda de memória recente e, com o avanço, evolui para comprometimentos do raciocínio, da comunicação e da mobilidade, levando à dependência.

Lourenço atua no estudo de demências desde a graduação em Biologia e coordena o Lourenço Lab, dedicado ao tema. Seu grupo investiga diferentes aspectos da doença, incluindo mecanismos que tornam o cérebro vulnerável ao acúmulo de proteínas associadas ao Alzheimer — especialmente beta‑amiloide e tau — e vias celulares responsáveis pela degradação protéica, como o proteassoma. Em modelos animais, o laboratório testa substâncias que possam impedir o acúmulo dessas proteínas ou restaurar a função dos sistemas de degradação.

O grupo também trabalha com diagnóstico precoce, buscando validar em populações brasileiras biomarcadores sanguíneos identificados em outros países e descobrir possíveis marcadores específicos do Brasil. Estudos apontam que a patologia começa a se desenvolver anos antes do aparecimento dos sintomas, o que abre uma janela para intervenções mais eficazes. Estimativas globais indicam cerca de 40 milhões de pessoas com Alzheimer, com aproximadamente 2 milhões no Brasil, número que pode estar subestimado devido a limitações de acesso a serviços de saúde e diagnóstico.

Wagner Brum integra o Zimmer Lab e concentrou-se na implementação clínica de um exame de sangue capaz de detectar a proteína p‑tau217, um biomarcador-chave para Alzheimer. Além de demonstrar precisão em pesquisa, o trabalho de Brum estabeleceu protocolos e critérios de leitura para uso diagnóstico rotineiro, lidando com uma faixa de 20% a 30% de resultados intermediários que requerem testes complementares.

O protocolo desenvolvido aumenta a confiabilidade do exame e já vem sendo adotado por laboratórios na Europa e nos Estados Unidos. No entanto, a incorporação ainda é limitada no Brasil, restrita a alguns laboratórios privados. Estudos em andamento no Rio Grande do Sul visam avaliar o impacto desses exames na prática clínica e gerar evidências necessárias para sua eventual inclusão no Sistema Único de Saúde (SUS), o que dependerá de demonstrações de que a adoção melhora a confiança diagnóstica e altera condutas terapêuticas.

Atualmente, o diagnóstico no país baseia-se majoritariamente na avaliação clínica e em exames de imagem estrutural, como tomografia e ressonância magnética, que identificam atrofia cerebral mas não são específicos para Alzheimer. Os métodos mais precisos são a análise do líquido cefalorraquidiano e a tomografia por emissão de pósitrons (PET‑CT), ambos de difícil acesso por custo e disponibilidade. A difusão de exames sanguíneos de biomarcadores pode facilitar a detecção precoce e aumentar a confiança dos clínicos no manejo da doença.

As pesquisas conduzidas por Lourenço e Brum contam com apoio de instituições brasileiras de fomento, entre elas a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), a Fundação Serrapilheira e o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor).

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