sexta-feira, março 27, 2026
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Nipah: o que é e por que preocupa a Ásia

Autoridades de saúde da Índia investigam um novo surto do vírus Nipah em Bengala Ocidental. Até o momento, pelo menos cinco profissionais de um hospital foram confirmados com a infecção e cerca de 100 pessoas que tiveram contato no mesmo estabelecimento foram colocadas em quarentena. Países vizinhos, como Tailândia, Nepal e Taiwan, reforçaram as medidas sanitárias em aeroportos por precaução.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Nipah é um vírus zoonótico que também pode ser transmitido por alimentos contaminados ou diretamente entre pessoas. A infecção varia desde quadros assintomáticos até doenças respiratórias agudas e encefalite, que pode ser fatal.

Histórico e reservatório
O vírus foi identificado pela primeira vez em 1999, durante um surto entre criadores de suínos na Malásia. Em 2001, houve registros em Bangladesh, país que tem notificado surtos quase anualmente desde então. A OMS indica que o Nipah também é detectado periodicamente no leste da Índia, região onde fica Bengala Ocidental.

Morcegos frugívoros da família Pteropodidae, especialmente do gênero Pteropus, são considerados o reservatório natural do vírus. Evidências da circulação do Nipah foram encontradas em morcegos de diversos países, incluindo Camboja, Gana, Indonésia, Madagascar, Filipinas e Tailândia.

Formas de transmissão
No surto original na Malásia e em episódios que também atingiram Singapura, a maioria dos casos humanos esteve ligada ao contato com porcos doentes, por exposição às secreções ou ao manuseio de carcaças. Em surtos posteriores em Bangladesh e Índia, a contaminação foi frequentemente associada ao consumo de frutas ou sucos contaminados com urina ou saliva de morcegos infectados.

A transmissão entre humanos já foi documentada, principalmente entre familiares e cuidadores, por contato próximo com fluidos corporais. Na cidade de Siliguri, em 2001, um surto em ambiente hospitalar registrou que 75% dos casos ocorreram entre funcionários ou visitantes da unidade de saúde. Entre 2001 e 2008, aproximadamente metade dos casos em Bangladesh foi atribuída à transmissão pessoa a pessoa.

Quadro clínico
Os primeiros sintomas típicos incluem febre, dor de cabeça, mialgia, vômitos e dor de garganta. Podem evoluir para tontura, sonolência, alteração do nível de consciência e sinais neurológicos compatíveis com encefalite aguda.

Alguns pacientes desenvolvem pneumonia atípica e insuficiência respiratória grave, inclusive síndrome do desconforto respiratório agudo. Casos graves podem progredir para convulsões e coma em 24 a 48 horas.

O período de incubação geralmente varia de 4 a 14 dias, com relatos isolados de até 45 dias. Entre os sobreviventes de encefalite aguda, cerca de 20% podem apresentar sequelas neurológicas de longo prazo, como distúrbios convulsivos e mudanças de personalidade. Há também registros de recaídas e de encefalite de início tardio.

A taxa de letalidade do Nipah é estimada entre 40% e 75%, dependendo do surto e da capacidade local de vigilância e de atendimento clínico.

Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico é dificultado pelos sintomas iniciais inespecíficos. Os principais exames envolvem RT-PCR em fluidos corporais e detecção de anticorpos por ensaio imunoenzimático. Outros métodos incluem ensaios de PCR e isolamento viral em cultura celular.

Não há medicamentos antivirais ou vacinas específicas aprovadas para Nipah. A orientação é manejo clínico de suporte intensivo para tratar complicações respiratórias e neurológicas.

Animais domésticos e sinais em suínos
Além dos morcegos, o vírus já foi detectado em suínos e em outros animais domésticos durante surtos anteriores. Em suínos, a infecção pode ser assintomática ou manifestar-se com febre, dificuldades respiratórias e sinais neurológicos; a mortalidade costuma ser baixa, exceto em leitões jovens. A vigilância de suínos com tosse incomum ou a ocorrência de casos humanos de encefalite na mesma região deve aumentar a suspeita de Nipah.

Prevenção
Na ausência de vacina, a prevenção baseia-se em reduzir a exposição ao vírus e em campanhas de conscientização. Medidas recomendadas incluem:

– Evitar consumo de frutas ou sucos potencialmente contaminados por morcegos; ferver sucos recém-colhidos e lavar e descascar frutas antes do consumo; descartar frutas com marcas de mordidas.
– Proteger locais de coleta de seiva e pontos de armazenamento de alimentos para impedir o acesso de morcegos.
– Usar equipamentos de proteção ao manusear animais doentes, seus tecidos ou durante abate e descarte.
– Proteger rações e estábulos de suínos para reduzir o contato com morcegos.
– Evitar contato próximo e desprotegido com pessoas infectadas e adotar higiene das mãos após cuidar ou visitar pacientes.

A OMS inclui o Nipah em sua lista de patógenos com potencial epidêmico e recomenda fortalecimento da vigilância, educação em saúde pública e medidas de controle de infecção para reduzir novos surtos.

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