quarta-feira, março 25, 2026
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Moradores de Havana descrevem o cotidiano: “O pior momento que já vivemos”

Cubanos em Havana enfrentam aumento de apagões, alta de preços e redução de serviços desde o endurecimento do bloqueio energético dos Estados Unidos no fim de janeiro.

Nas últimas semanas, a capital registrou cortes de energia cada vez mais imprevisíveis e mais longos. Relatos locais indicam que a duração média diária dos apagões subiu de cerca de quatro horas para cinco horas, com episódios isolados atingindo até 12 horas. Nas províncias do interior, as interrupções podem durar quase o dia todo.

A geração elétrica de Cuba depende em cerca de 80% de termelétricas movidas a combustíveis fósseis. A nova política dos EUA reduziu a margem de compra de petróleo de Havana no mercado internacional. O bloqueio naval contra a Venezuela, iniciado no fim de 2025, também contribuiu para a piora no abastecimento energético.

Os cortes de energia têm impacto direto em serviços básicos. Bombas de água deixam de operar, telefonia e internet sofrem interrupções e caixas eletrônicos ficam fora de funcionamento, prejudicando transações e trâmites administrativos. A redução no fornecimento de combustíveis trouxe ainda diminuição da oferta de transporte público e aumento do custo do transporte privado. Linhas regulares passaram a operar com menos viagens diárias; em trechos nacionais, houve queda na frequência de trens e ônibus de longa distância.

A escassez de combustíveis e a limitação na compra de petróleo pressionaram os preços de alimentos básicos. Itens como arroz, óleo e carne de frango registraram aumentos em ritmo acelerado, afetando o poder de compra da população. O Estado também tem enfrentado dificuldades para manter a entrega integral da cesta básica subsidiada.

No setor de saúde, a crise energética e a carência de suprimentos afetaram a disponibilidade de medicamentos e a rotina de atendimentos. Consultas eletivas foram adiadas e o atendimento de emergência passou a ser priorizado, enquanto parte da população recorre a mercados paralelos ou a rede de apoio de familiares para obter remédios.

Em educação e cultura, a oferta de ensino para crianças em séries iniciais tem sido mantida em grande parte, beneficiada pela proximidade das escolas às residências. Centros culturais e programas gratuitos de formação artística ainda funcionam em algumas localidades, apesar das limitações logísticas.

O agravamento econômico do país teve início durante a pandemia de covid-19, que afetou o turismo — principal fonte de divisas — e reduziu receitas do Estado. Medidas de sanção impostas pelo governo dos Estados Unidos entre 2017 e 2021 foram mantidas e ampliadas em administrações subsequentes, incluindo restrições a exportações de serviços médicos, uma importante fonte de renda externa para Cuba.

No fim de janeiro, o governo dos EUA passou a ameaçar com tarifas países que vendessem petróleo a Cuba e classificou a ilha como uma ameaça à segurança nacional, citando alinhamentos geopolíticos como justificativa. O bloqueio econômico contra Cuba já atravessa seis décadas, apontam registros históricos.

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