quinta-feira, setembro 24, 2026

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Acre combate desinformação para ampliar vacinação contra o HPV

Apesar de avanços nacionais, a vacinação contra o HPV segue com cobertura abaixo do ideal, especialmente no Acre. No ano passado, a média nacional foi de 86% entre meninas e 74,5% entre meninos. No Acre, os índices foram os mais baixos do país: 59% entre meninas e 50% entre meninos.

O principal fator apontado para a queda nas coberturas no estado foi um episódio de 2017, quando 74 adolescentes relataram sintomas — de dores de cabeça a desmaios e convulsões — após receberem a vacina. Investigações ampliadas não identificaram relação biológica entre os componentes do imunizante e os eventos. A situação, no entanto, gerou ampla repercussão pública e campanhas de desinformação.

Antes de 2017, havia 14 notificações de possíveis eventos adversos no Acre. Em seis meses, esse número subiu para 127, o que motivou uma força-tarefa que checou lotes de vacinas e avaliou os jovens afetados. Doze casos mais graves foram encaminhados à Faculdade de Medicina da USP para exames avançados, incluindo videoencefalograma.

Laudos médicos atribuíram dois quadros a epilepsia de origem genética em irmãos. Os demais foram diagnosticados com crise psicogênica não epiléptica (CNEP), resposta física involuntária ao estresse vinculada ao ato de vacinar, sem relação biológica com a vacina. Sociedades médicas destacam que a CNEP é uma manifestação reconhecida desde 1992 em diferentes países e imunizações, que pode ser desencadeada por fatores psicológicos e por conteúdos propagados nas redes sociais.

A repercussão reduziu a oferta de vacinação nas escolas, estratégia considerada mais eficaz para imunizar adolescentes. No Acre, em 2018 e 2019, menos de 10% dos adolescentes compareceram aos postos de saúde para receber o imunizante, segundo autoridades locais.

Eventos adversos são monitorados pelo sistema de farmacovigilância brasileiro. A maior parte das notificações refere-se a sintomas leves já descritos nas bulas. Casos graves passam por investigação coordenada pelo Ministério da Saúde, com participação de municípios e estados, para avaliar causalidade. Na maioria das vezes, conclui-se que a relação com a vacina é apenas temporal, não causal.

Estudos e acompanhamento de fabricantes e instituições mostram alta efetividade da vacina contra HPV, com redução de incidência de cânceres associados ao vírus. A vacina oferecida pelo SUS, produzida em parceria com o Instituto Butantan, protege contra quatro tipos de HPV, incluindo os de maior risco (16 e 18). Há cerca de 20 anos de estudos e monitoramento dos riscos e benefícios do imunizante.

Medidas para recuperar a confiança incluem capacitação de profissionais de saúde e ações de comunicação com a população. No início de maio foi realizada formação direcionada a trabalhadores que atendem aldeias indígenas e comunidades isoladas, com conteúdo sobre efeitos adversos e estratégias de comunicação.

Casos locais de sucesso mostram que intervenções criativas podem elevar coberturas. Em Porto Walter, município de 11 mil habitantes na fronteira com o Peru, a cobertura em 2025 alcançou 72% entre meninas e 68% entre meninos. A prefeitura combinou orientações em escolas com uma ação chamada “Cinema da Imunização”, que oferecia ingresso a quem se vacinasse e garantia vacinação no local para quem comparecia ao cinema.

Especialistas ressaltam que é necessário combinar múltiplas estratégias por períodos prolongados para recuperar e manter altas taxas de vacinação. A urgência se justifica por dados sobre a carga de doença: cerca de 7,5 mil brasileiros morrem por ano por cânceres associados ao HPV. Estimativas indicam cerca de 19 mil novos casos de câncer de colo do útero por ano entre 2026 e 2028; o Acre figura como o quinto estado com maior taxa de incidência.

No SUS, a vacina está disponível para meninas e meninos de 9 a 14 anos e para grupos específicos, como imunodeprimidos, vítimas de abuso sexual, pessoas com papilomatose respiratória recorrente, usuários de PrEP e pacientes com histórico de lesões pré-cancerosas de alto grau. O Ministério da Saúde também instituiu um programa de resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que não foram vacinados na faixa etária recomendada; mais de 217 mil jovens já foram imunizados nessa modalidade.

A equipe responsável pela cobertura desta matéria viajou ao Acre a convite da farmacêutica MSD.

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