**Mola gestacional pode evoluir para câncer de placenta e exige acompanhamento especializado**
A doença trofoblástica gestacional, conhecida popularmente como mola gestacional, é uma alteração rara da gravidez causada por erro na fertilização. Embora inicialmente seja considerada um tumor benigno, a condição pode evoluir para câncer de placenta em parte dos casos e exige acompanhamento médico rigoroso.
A terapeuta ocupacional Daiana Nascimento descobriu a condição há cerca de dois anos, após confirmar uma gravidez muito esperada. No primeiro ultrassom, foi identificado que a gestação não se desenvolveria normalmente. O diagnóstico era de mola gestacional. Poucas semanas depois, o quadro evoluiu para um tumor maligno de placenta.
A mola pode ser parcial ou completa. Na forma parcial, ocorre a fecundação de um óvulo normal por dois espermatozoides ou por um espermatozoide com material genético duplicado. O resultado é uma placenta anormal e um embrião com alterações genéticas incompatíveis com a vida.
Na mola completa, um óvulo sem material genético é fecundado, formando apenas tecido placentário alterado, sem embrião. Em ambos os casos, a gestação precisa ser interrompida e o tecido retirado para evitar complicações como sangramento uterino, alterações na tireoide e problemas de pressão arterial.
O risco mais grave é a transformação em câncer de placenta. A evolução ocorre quando células da mola permanecem e se instalam no útero. A chance é inferior a 5% nas molas parciais, mas chega a cerca de 20% nos casos de mola completa. Em quadros mais agressivos, pode haver metástase, principalmente nos pulmões.
No Brasil, a doença é mais frequente do que em alguns países desenvolvidos. Estima-se que uma a cada 200 a 400 gestações no país apresente mola gestacional. Nos Estados Unidos, a ocorrência é de cerca de uma a cada mil gestações, enquanto na Inglaterra é de uma a cada duas mil. Fatores genéticos, imunológicos e alimentares são investigados como possíveis explicações para essa diferença, mas ainda não há causa definida.
O Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) é uma das principais referências mundiais no atendimento e na pesquisa sobre a doença. A unidade, ligada à rede HU Brasil, atende pelo Sistema Único de Saúde cerca de 80 pacientes por semana, incluindo mulheres da capital fluminense, de outros municípios do estado e de outras regiões do país. Parte das pacientes possui plano de saúde, mas busca o serviço público especializado.
O diagnóstico costuma ocorrer após exame de ultrassom realizado no início da gestação, depois da confirmação por teste de sangue ou urina. Muitas mulheres chegam ao atendimento sem conhecimento prévio sobre a doença.
Depois da retirada da mola por aspiração uterina, a paciente precisa manter seguimento regular. O material é analisado em exame histopatológico para identificar se a mola é parcial ou completa. Em seguida, são realizadas consultas periódicas e medições do HCG, hormônio produzido durante a gravidez e usado como marcador tumoral nesses casos.
Após a interrupção da gestação, o esperado é que o HCG caia até atingir níveis normais. Quando isso não ocorre, há indicação de que células da mola permaneceram ativas e podem ter dado origem ao câncer de placenta. O tratamento do tumor maligno é feito com quimioterapia.
Com acompanhamento adequado, a maioria das pacientes se cura. Após a recuperação e o período de controle indicado pela equipe médica, muitas mulheres podem engravidar novamente. No caso de Daiana, as sessões de quimioterapia já foram concluídas e o HCG está normalizado. Apesar disso, ela ainda precisa aguardar alguns meses antes de tentar uma nova gestação, porque um teste positivo poderia dificultar a identificação de eventual retorno da doença.
Em alguns casos, especialmente em pacientes mais velhas, que já tiveram filhos ou que não desejam engravidar novamente, pode ser indicada a histerectomia, cirurgia de retirada do útero.
Foi o que ocorreu com Mônica Rosa do Amaral Pelizari. Ela tinha 45 anos, já era mãe e descobriu a mola após um abortamento espontâneo. Cerca de um mês depois, também recebeu diagnóstico de câncer de placenta. O tratamento incluiu cirurgia e quimioterapia. Atualmente curada, ela mantém consultas anuais para monitoramento clínico e hormonal.
Além do tratamento médico, o acompanhamento das pacientes envolve apoio psicológico e social. A Maternidade Escola da UFRJ também oferece iniciativas de acolhimento, incluindo musicoterapia. O suporte é considerado importante porque o diagnóstico reúne perda gestacional, risco oncológico e mudanças profundas na rotina familiar.
A necessidade de deslocamentos frequentes também pode representar um desafio. Daiana mora em São Pedro da Aldeia, a cerca de 141 quilômetros da capital fluminense, e precisou recorrer ao transporte médico municipal para comparecer a consultas e sessões de quimioterapia. Posteriormente, passou a utilizar gratuidade em ônibus intermunicipais, o que facilitou parte da rotina.
O acompanhamento mínimo costuma durar meses e pode se estender por mais tempo, dependendo da evolução clínica. Por isso, especialistas recomendam que as pacientes sejam tratadas em centros de referência, onde há equipes preparadas para diagnóstico, controle hormonal, quimioterapia quando necessária e suporte integral durante o processo.



