sábado, março 28, 2026
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COP15 destaca Pantanal como ponto de parada e alimentação para 190 espécies de aves migratórias

O Pantanal sul-mato-grossense, a maior área úmida contínua do planeta e bioma com o mais elevado índice de conservação, funciona como ponto de parada para descanso e alimentação de cerca de 190 espécies de aves migratórias. Muitas delas fazem trajetos que envolvem o Hemisfério Norte — com concentrações no Canadá e nos Estados Unidos — até regiões da Patagônia, no extremo sul da América do Sul.

Mato Grosso do Sul foi escolhido para sediar a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias da ONU (COP15). O encontro ocorrerá de 23 a 29 de março em Campo Grande e deve reunir entre 2 mil e 3 mil especialistas provenientes de aproximadamente 100 países. A Zona Azul será instalada no Expo Bosque, no Shopping Bosque dos Ipês, com eventos paralelos em outros pontos da cidade. A conferência é organizada pela ONU, com apoio do governo estadual por meio da Semadesc e outras secretarias.

O Pantanal também abriga peixes migratórios importantes, como o pintado (Pseudoplatystoma corruscans) e o dourado (Salminus brasiliensis), que realizam a piracema — migração sazonal para reprodução. Além disso, a região sustenta uma das maiores populações de onça‑pintada (Panthera onca) do mundo, o que a torna relevante para a proteção dessa espécie.

A COP tem como foco espécies migratórias que enfrentam risco de extinção ou que se beneficiam de acordos internacionais, debatendo medidas de proteção e ações coordenadas entre os países por onde essas espécies transitam. Atualmente, 133 nações são signatárias do Tratado de Proteção às Espécies Migratórias, enquanto a Convenção‑Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima conta com 198 partes.

Pesquisa conduzida por Alessandro Pacheco Nunes e Walfrido Moraes Tomas, da Embrapa Pantanal, aponta que espécies aquáticas ou associadas a ambientes aquáticos representam 18% da comunidade de aves de Mato Grosso do Sul. Essas espécies concentram‑se principalmente no Pantanal e na planície de inundação do alto rio Paraná, na divisa com São Paulo e Paraná. O estudo identifica 27 espécies — em sua maioria maçaricos (família Scolopacidae) — que passam pelo estado durante deslocamentos entre o Hemisfério Norte e a Patagônia. Algumas dessas aves provêm da Argentina, Chile, Uruguai e do extremo sul do Brasil (Rio Grande do Sul), fazem paradas no Pantanal por dias ou semanas e seguem depois rumo ao norte da América do Sul, com destinos como Colômbia e Venezuela.

A manutenção de habitats íntegros, com paisagens conectadas e ecossistemas funcionais na planície pantaneira, é essencial para a sobrevivência das rotas migratórias, beneficiando aves, mamíferos, peixes e outros grupos que cruzam fronteiras ao longo de suas jornadas.

As políticas estaduais visam fortalecer a conservação em escala de paisagem, garantindo alimento, abrigo e conectividade — elementos fundamentais para ciclos migratórios bem‑sucedidos — e também promover cooperação internacional nos objetivos de biodiversidade. O governo estadual reconhece que a conservação exige ações concretas e a participação das comunidades locais, por meio de inclusão produtiva, repartição justa dos benefícios ambientais e melhoria da qualidade de vida.

Com área estimada em 150 mil quilômetros quadrados, a planície pantaneira é formada por extensas gramíneas, salinas e landizais que oferecem locais seguros para descanso e reabastecimento durante as longas jornadas migratórias.

A riqueza ambiental da região recebeu proteção legal pela Lei do Pantanal (Lei Estadual 6.160, de 18 de dezembro de 2023). A norma considera as salinas como áreas de proteção permanente (APP), abrangendo tanto o corpo d’água quanto a faixa de praia de 100 metros. A vegetação nativa pantaneira passou a ter proteção legal, com obrigatoriedade para proprietários rurais de manter ao menos 40% dessa cobertura. Nos landizais, a lei determina proteção total do curso d’água e de sua margem. A legislação também prioriza a preservação de corredores ecológicos que conectam reservas e áreas protegidas, favorecendo a fauna pantaneira.

A onça‑pintada, embora não realize migrações sazonais longas como algumas aves ou baleias, é considerada espécie migratória em risco porque muitas de suas populações ocupam territórios que atravessam fronteiras nacionais e dependem da conectividade de habitats para manter fluxo gênico. Desde a COP14, realizada em 2024, a espécie figura entre as protegidas no âmbito da convenção, o que fortalece a colaboração entre países para ações conjuntas de conservação e mitigação de ameaças como perda de habitat e conflitos com atividade humana.

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