O governo federal defende a abertura de diálogo com a sociedade e com o Congresso Nacional sobre a redução da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais e o fim da escala 6×1 (seis dias trabalhados e um de folga), com a adoção da escala 5×2. O objetivo declarado é ampliar o tempo de descanso e lazer dos trabalhadores.
Há relatos de trabalhadores em regime 6×1 que descrevem rotinas longas. Em Brasília, uma cobradora de ônibus atua há 15 anos em jornada de seis horas por dia, de segunda a sábado, com folga apenas aos domingos. Outra trabalhadora contratada como auxiliar de serviços gerais informa expediente das 7h às 18h, com uma hora de almoço, de segunda a sexta, e alternância entre sábado e domingo, além de contratar cuidadora para o filho, no valor de R$ 350 mensais. Uma balconista de farmácia que trabalha em escala 6×1 também declara ter dificuldades para conciliar estudos e vida pessoal.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE de 2022 mostram que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, contra 11,7 horas dos homens — diferença de 9,6 horas. Entre mulheres pretas e pardas, o trabalho doméstico não remunerado é, em média, 1,6 hora semanal a mais do que entre mulheres brancas.
Organizações e instâncias governamentais que tratam de políticas para as mulheres têm colocado a redução da jornada e o fim da escala 6×1 como medidas para mitigar a sobrecarga do trabalho não remunerado feminino e seus impactos sobre saúde, educação e qualificação profissional.
No campo da mobilização social, a Articulação Nacional 8 de Março e mais de 300 organizações entregaram ao Ministério das Mulheres, em 2026, um manifesto em defesa do fim da escala 6×1, documento resultante da 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em 2025.
Uma pesquisa de opinião da consultoria Nexus, realizada entre janeiro e fevereiro de 2026, indica que cerca de 84% dos brasileiros apoiam ao menos dois dias de descanso semanal. Segundo o levantamento, 73% dos entrevistados são favoráveis ao fim da escala 6×1, desde que os salários sejam mantidos.
Setores empresariais apresentam estudos contrários à proposta. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta impacto de até R$ 267 bilhões ao ano para as empresas formais, o que equivaleria a até 7% de aumento na folha de pagamentos. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estimou elevação de custos de R$ 122,4 bilhões por ano no comércio e possibilidade de aumento de preços ao consumidor em até 13%; o estudo também aponta efeitos sobre a preservação de empregos formais e competitividade, e defende negociações por meio de acordos coletivos.
Pesquisa do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit/Unicamp), intitulada “O Brasil está pronto para trabalhar menos: a PEC da redução da jornada e o fim da escala 6×1”, apresenta projeções distintas. Com base na PNAD Contínua, o estudo indica que cerca de 37% dos trabalhadores seriam beneficiados e estima a criação de até 4,5 milhões de empregos, além de ganhos de produtividade.
No Legislativo, o tema tramita na Câmara dos Deputados. Em fevereiro de 2026, o presidente da Casa encaminhou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ); o texto deverá seguir para uma comissão especial antes de eventual votação em plenário. O Executivo sinalizou que pode enviar projeto de lei com pedido de urgência para consolidar propostas existentes, caso o andamento no Congresso seja considerado lento.
Desde 2023, uma petição pública criada pelo Movimento Vida Além do Trabalho em favor de modelos de trabalho mais flexíveis reuniu quase 3 milhões de assinaturas e permanece como elemento de pressão política e mobilização sobre o tema.



