sábado, março 28, 2026
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Ultraprocessados representam quase 25% da dieta dos brasileiros

A proporção de alimentos ultraprocessados na dieta dos brasileiros mais que dobrou desde a década de 80, passando de 10% para 23%. Essa informação foi divulgada em uma coleção de artigos publicados por mais de 40 cientistas, com a liderança de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).

Os dados, apresentados na revista Lancet, revelam que essa tendência não é exclusiva do Brasil. Em uma análise de 93 países, o aumento do consumo de ultraprocessados foi observado em todas as nações, exceto no Reino Unido, que manteve uma taxa estável de 50%. Os Estados Unidos lideram esse ranking, com mais de 60% da dieta composta por esses produtos.

O crescimento do consumo de ultraprocessados foi especialmente notável em países como Espanha e Coreia do Norte, onde o percentual triplicou, e na China, que viu uma elevação de 3,5% para 10,4%. Na Argentina, a participação cresceu de 19% para 29% durante o mesmo período.

O estudo ressalta que o aumento foi notado em países de diferentes faixas de renda, com as nações de alta renda partindo de níveis elevados e as de baixa renda apresentando crescimentos mais significativos. Observa-se que, inicialmente, o consumo se concentrava em grupos de maior renda, mas foi se espalhando para outras camadas sociais.

Embora influenciado pelo nível de renda, o aumento do consumo de ultraprocessados também é afetado por fatores culturais. Países como o Canadá, com 40% do consumo desse tipo de produto, contrastam com nações como Itália e Grécia, que mantêm índices abaixo de 25%.

Historicamente, os ultraprocessados tornaram-se comuns após a Segunda Guerra Mundial, mas sua ascensão global se acelerou a partir da década de 80, alinhando-se ao crescimento da globalização. Durante esse mesmo período, aumentaram as taxas de obesidade e de doenças como diabetes tipo 2 e câncer colorretal.

Estudos indicam que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a uma maior ingestão calórica e menor qualidade nutricional. Uma revisão de 104 investigações de longo prazo revelou que 92 delas apontaram um risco elevado de doenças crônicas, como câncer e problemas cardiovasculares.

Os cientistas enfatizam que a substituição de dietas tradicionais por ultraprocessados contribui significativamente para a elevação de doenças crônicas em escala global e reforçam que as pesquisas sobre os efeitos na saúde humana devem ser acompanhadas de ações de saúde pública urgentes.

Ultraprocessados referem-se a alimentos altamente modificados, produzidos a partir de ingredientes baratos e aditivos químicos, com pouco valor nutritivo. A classificação desses alimentos, criada em 2009 por pesquisadores brasileiros, visa esclarecer a relação entre o processamento e a qualidade da dieta.

Os cientistas também propõem ações para reduzir o consumo de ultraprocessados, incluindo a rotulagem de aditivos nas embalagens e a proibição de venda desses produtos em instituições públicas, como escolas. O Brasil é citado positivamente por seu Programa Nacional de Alimentação Escolar, que exige que 90% dos alimentos servidos em escolas sejam frescos ou minimamente processados.

Além disso, recomenda-se a imposição de restrições à publicidade direcionada ao público infantil, bem como a criação de políticas que aumentem a disponibilidade de alimentos in natura, possivelmente através da taxação de ultraprocessados. Os pesquisadores destacam que a responsabilidade por essa crescente demanda não recai sobre decisões individuais, mas sim sobre as grandes corporações, que utilizam estratégias de marketing agressivas e ingredientes de baixo custo. O mercado de ultraprocessados, com vendas globais atingindo US$ 1,9 trilhão, se tornou o segmento mais lucrativo da indústria alimentícia.

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