sábado, março 28, 2026
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Sanções dos EUA agravaram o colapso econômico na Venezuela

Alvo de ações militares e de um conjunto de sanções econômicas dos Estados Unidos, a Venezuela convive há anos com medidas unilaterais que afetam sua capacidade financeira e comercial.

Relatórios das Nações Unidas e estudos acadêmicos apontam que cercos econômicos prolongados vêm sendo usados como instrumento de política externa para pressionar governos. A prática foi adotada também em outros países, como o Irã.

No caso venezuelano, o bloqueio financeiro e comercial dificultou o financiamento da indústria petrolífera, impôs barreiras ao refinanciamento da dívida, complicou transações em mercados internacionais e resultou no congelamento ou na transferência de ativos do país mantidos no exterior.

Países como Portugal e Reino Unido também adotaram medidas sobre ativos venezuelanos. O Banco da Inglaterra reteve 31 toneladas de ouro avaliadas em US$ 1,2 bilhão. Instituições financeiras de outros países passaram a tratar transações vinculadas à Venezuela com restrições, o que fechou canais de financiamento.

A proibição de pagamento de dividendos da Citgo — principal filial da estatal PDVSA no exterior — e a posterior liquidação da empresa por decisão da justiça norte-americana, no fim de 2025, transformaram esses ativos em garantia para credores internacionais da Venezuela.

A recessão entre 2013 e 2022 reduziu cerca de 75% do produto interno bruto venezuelano. O colapso econômico impulsionou a saída de mais de 7,5 milhões de pessoas, equivalente a aproximadamente 20% da população.

A trajetória da crise envolve fatores internos e externos. A queda nos preços do petróleo a partir de 2014, em que o barril sofreu redução próxima a 70%, redundou em forte perda de receitas de exportação num país cuja economia é majoritariamente rentista petrolífera. A partir de agosto de 2017 começaram a vigorar sanções mais amplas dos EUA, seguidas entre 2018 e 2020 por restrições a setores como ouro, minérios, petróleo e diesel, além de sanções secundárias a empresas estrangeiras que mantinham relações comerciais com a Venezuela.

O setor petrolífero sofreu retrações significativas: recuo de 11,5% em 2017 e de 30,1% em 2018, o primeiro ano após a imposição do bloqueio financeiro. Pesquisas citam uma perda de cerca de US$ 8,4 bilhões em divisas decorrente desse declínio, afetando a capacidade de financiar importações essenciais.

Estudos e instituições de pesquisa económica indicam que as sanções tiveram papel importante no agravamento da crise, contribuindo para a intensificação da inflação que culminou na hiperinflação oficialmente reconhecida em dezembro de 2017. A partir de 2019, medidas adicionais — como o bloqueio de reservas em ouro e a restrição ao acesso ao mercado consumidor dos EUA — agravaram a deterioração das receitas de exportação. Autoridades dos Estados Unidos estimaram que a proibição do comércio petrolífero venezuelano poderia gerar perdas superiores a US$ 11 bilhões em 2020.

A retomada de parte das flexibilizações de medidas a partir de 2022 coincidiu com sinais de recuperação. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) registram crescimento do PIB venezuelano de 8,5% em 2024 e de 6,5% em 2025.

As sanções foram justificadas pelas autoridades norte-americanas com base em argumentos de proteção de direitos humanos, promoção da democracia e combate ao narcotráfico. A legislação e as ferramentas legais que embasaram o bloqueio começaram a ser aprovadas em dezembro de 2014 e foram ampliadas por uma ordem executiva de março de 2015, que declarou emergência nacional e autorizou a imposição de medidas punitivas contra a Venezuela.

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