quinta-feira, março 26, 2026
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Polilaminina: avanços promissores e os testes que ainda são necessários

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a farmacêutica Cristália, desenvolvem estudos sobre a polilaminina, molécula que ganhou repercussão recente por potencial uso em lesões medulares. Ainda que os resultados iniciais sejam promissores, há perguntas abertas sobre segurança e eficácia que precisam ser respondidas em ensaios clínicos formais.

A descoberta da polilaminina ocorreu durante trabalhos com a laminina, proteína presente no organismo. Ao manipular a laminina em laboratório, pesquisadores observaram a formação de uma rede molecular — a polilaminina — semelhante a uma base que, no sistema nervoso, facilita o crescimento dos axônios, estruturas responsáveis pela transmissão de sinais entre neurônios. Em lesões da medula espinhal, a ruptura dos axônios interrompe a comunicação entre o cérebro e o corpo, levando à paralisia. A hipótese é que a polilaminina possa servir como suporte para o reencaminhamento dos axônios e a restauração das conexões nervosas.

Antes dos testes em humanos houve extensa fase pré-clínica em culturas celulares e modelos animais. Entre 2016 e 2021 foi realizado um estudo-piloto com oito pessoas que sofreram lesão medular completa em diferentes níveis torácicos e cervicais, decorrentes de quedas, acidentes automobilísticos ou ferimentos por arma de fogo. Sete dos oito participantes também foram submetidos à cirurgia de descompressão da coluna, procedimento padrão nesses casos, com intervenções realizadas até 72 horas após a lesão.

Duas pessoas faleceram ainda no hospital devido à gravidade dos ferimentos e uma morreu posteriormente por complicações. Dos cinco sobreviventes que receberam polilaminina e cirurgia, foram observados ganhos motores em avaliações clínicas, embora a recuperação completa da marcha não tenha ocorrido em todos os casos.

A evolução foi registrada segundo a escala AIS (American Spinal Injury Association Impairment Scale), que vai de A (lesão completa) a E (função motora e sensitiva normal). Quatro pacientes progrediram de A para C, o que indica recuperação parcial de sensibilidade e movimentos. Um paciente alcançou o nível D, com recuperação sensório-motora mais ampla e força muscular próxima do normal.

Esses achados, contudo, não constituem evidência definitiva. Estudos preliminares apontam que até 15% de casos inicialmente classificados como lesão completa podem apresentar recuperação espontânea. Além disso, avaliações feitas logo após a fratura podem ser influenciadas por inflamação e edema, levando a reclassificações em avaliações subsequentes.

Fase clínica e desenho do ensaio

O desenvolvimento clínico entrou na fase 1, etapa voltada principalmente à segurança e à tolerabilidade em seres humanos, bem como ao estudo de como a substância se comporta no organismo. Devido à forma de aplicação — injeção diretamente na medula — os primeiros testes serão realizados em pacientes com lesão medular aguda, e não em voluntários saudáveis.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o protocolo para aplicação da polilaminina em cinco pacientes voluntários com idade entre 18 e 72 anos e lesões torácicas completas entre T2 e T10, cuja cirurgia indicativa tenha ocorrido em até 72 horas após o trauma. Os procedimentos serão realizados no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. O desenho do estudo inclui monitoramento de eventos adversos, avaliações neurológicas periódicas e exames laboratoriais para detecção de eventual toxicidade hepática ou renal.

Tradicionalmente, o desenvolvimento de um novo medicamento percorre três fases clínicas: fase 1 (segurança e farmacocinética), fase 2 (avaliação preliminar de eficácia e ajustes de dose) e fase 3 (confirmação de eficácia em amostra ampla e multicêntrica). No caso da polilaminina, por se tratar de intervenção em lesão medular e não em voluntários saudáveis, a fase 1 oferecerá também sinais iniciais sobre possíveis efeitos terapêuticos. Em eventual fase 2, estão previstas a avaliação de doses diferentes.

Desafios éticos e regulatórios

Ensaios em larga escala normalmente envolvem randomização e grupo controle, com duplo-cego quando possível, para comparar o novo tratamento ao melhor padrão disponível. O caráter agudo da lesão medular e o intervalo curto para aplicação da terapia trazem complexidade adicional ao desenho do estudo, incluindo questões sobre como oferecer acesso ao tratamento eficaz a participantes do grupo controle após o término do ensaio.

Comitês de ética e agências reguladoras acompanham os estudos mesmo após aprovação, fiscalizando práticas clínicas e salvaguardando os direitos e a segurança dos participantes. A Lei 14.874, sancionada em 2024, reduziu prazos e estabeleceu mecanismos para acelerar análise de novos estudos clínicos no país: comitês de ética têm até 30 dias para manifestação e a Anvisa, até 90 dias.

Perspectiva

Se a eficácia da polilaminina for confirmada em fases subsequentes, a tecnologia representaria uma novidade na abordagem de lesões medulares, condição que afeta milhões e tem impacto profundo na qualidade de vida. Entretanto, especialistas e reguladores enfatizam a necessidade de seguir todas as etapas de investigação para obter dados robustos sobre benefícios e riscos antes de qualquer recomendação terapêutica generalizada.

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