O Banco Master e a gestora Reag Investimentos foram alvo de liquidações determinadas pelo Banco Central em um dos maiores episódios de crise do sistema financeiro brasileiro. Investigações da Polícia Federal e relatórios do BC revelam supostas fraudes bilionárias, uso de fundos para ocultar prejuízos e manobras contábeis que esvaziaram a liquidez do banco.
O Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, cresceu rapidamente oferecendo CDBs com remuneração muito acima da média do mercado. Para manter esse modelo, o banco teria assumido riscos excessivos e estruturado operações que inflaram seu balanço, enquanto o caixa disponível diminuía.
Como funcionava o esquema
Investigações indicam que, entre 2023 e 2024, o Master desviou cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de operações trianguladas. Recursos eram emprestados a empresas supostamente interpostas, que aplicavam em fundos administrados pela Reag. Esses fundos teriam comprado ativos com pouco ou nenhum valor de mercado — como certificados do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) — a preços inflados.
O Banco Central identificou seis fundos da Reag sob suspeita, com patrimônio conjunto de R$ 102,4 bilhões. O fluxo de dinheiro teria circulado entre veículos vinculados aos mesmos intermediários até alcançar os beneficiários finais.
Mecanismo de pirâmide e colapso
Para postergar a inadimplência, o Master alongava prazos de empréstimos e emitia novos CDBs para honrar pagamentos anteriores, caracterizando mecanismo semelhante a uma pirâmide financeira. Em alguns momentos, o banco ofertou CDBs com remuneração de até 140% do CDI, patamar insustentável no longo prazo.
A partir de 2024, com crescentes suspeitas sobre a solidez do Master, a captação de recursos secou e o caixa entrou em colapso. O BC limitou a captação do banco a 100% do CDI, reduzindo ainda mais sua capacidade de financiamento.
Tentativa de venda ao BRB
Em busca de liquidez, o Master simulou a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno, uma operação apenas contábil, sem pagamentos ou créditos efetivos, segundo apuração do BC. Essa carteira foi posteriormente revendida ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões após manipulação de taxas de juros. Em setembro, o Banco Central vetou a tentativa de venda de parte do Master ao BRB, alegando indícios de irregularidades. Investigadores apontam que a proposta buscava mesclar balanços para diluir os efeitos da fraude em uma instituição pública.
Intervenção e liquidação
Desde abril de 2025 o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) passou a cobrir CDBs vencidos por meio de linha emergencial. O controlador tentou aportar recursos com a venda de bens pessoais, sem sucesso. O BC decretou a liquidação do banco em novembro de 2025, quando a instituição já não conseguia pagar nem 15% dos vencimentos semanais.
Papel da Reag Investimentos
Fundos administrados pela Reag aparecem como peça central na estrutura que sustentou o esquema. A gestora é investigada por facilitar a criação de empresas interpostas, valorizar ativos fictícios e pulverizar recursos entre veículos vinculados. A liquidação da Reag pelo BC ocorreu como desdobramento das apurações contra o Master, após a segunda fase da Operação Compliance Zero.
Tensão entre órgãos públicos
Apesar de o Master concentrar cerca de 0,5% dos ativos do sistema financeiro, a liquidação provocou atritos entre o BC, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas da União (TCU), o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso. O BC e o TCU ajustaram termos para inspeção de documentos, preservando o sigilo bancário e as prerrogativas da autoridade monetária.
No STF, o ministro Dias Toffoli assumiu processos vinculados ao caso, determinou a custódia do material apreendido pela PF e autorizou que a própria Polícia Federal, com apoio da Procuradoria-Geral da República, fizesse a análise do acervo sob guarda da Corte. Também houve ordem para coleta de depoimentos adicionais relacionados aos investigados.
Impacto para clientes e valor ao FGC
Com a liquidação do Master, o FGC passou a ser responsável por ressarcir aproximadamente 1,6 milhão de clientes. A estimativa atual é de desembolso de cerca de R$ 41 bilhões, o maior resgate da história do fundo e equivalente a cerca de um terço de seu patrimônio. O ressarcimento está limitado a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante, procedimento ainda em andamento dois meses após a liquidação.
Os fundos da Reag não contam com proteção do FGC; cotistas podem migrar seus recursos para outra gestora. Ainda segundo as investigações, 18 fundos de pensão estaduais e municipais aplicaram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras, sem cobertura do FGC.
Por que o caso é histórico
O episódio expôs falhas de fiscalização, uso indevido de fundos de investimento e pressões sobre órgãos de controle. Também suscitou dúvidas sobre auditorias e agências de rating que atestaram a saúde financeira do Master e sobre limites da supervisão. Autoridades e especialistas apontam que o caso deverá servir de referência para mudanças regulatórias e de governança no mercado financeiro.



