O Departamento de Justiça dos Estados Unidos retirou da nova denúncia contra Nicolás Maduro a acusação de que ele lidera o chamado “Cartel de Los Soles”. A peça processual, apresentada nesta semana, substitui a versão inicial de 2020, que mencionava o termo 33 vezes e identificava Maduro como chefe da suposta organização.
Na nova denúncia, a expressão “Cartel de Los Soles” aparece apenas em duas passagens de menor relevância, sem imputar a Maduro a liderança do grupo. O texto do governo americano passa a descrever o contexto como um sistema de corrupção em que elites e funcionários teriam se beneficiado de atividades relacionadas ao tráfico de drogas, e aponta que parte dos lucros teria sido desviada por autoridades corruptas. O documento também relaciona o emblema solar presente em uniformes de altos oficiais como origem do rótulo “Los Soles”.
A alteração chamou atenção porque, sob a administração Trump, o suposto cartel chegou a ser classificado como um grupo terrorista, e a narrativa sobre a liderança de Maduro foi usada, em termos discursivos, para justificar ações de Washington contra a Venezuela.
Organizações internacionais e relatórios oficiais não adotam o termo. Publicações do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) não mencionam o “Cartel de Los Soles”, e o Relatório Anual Sobre Ameaças de Drogas da DEA de 2025 também não traz referência ao grupo. No mercado internacional de drogas, há resistência em caracterizar a Venezuela como um narcoestado ou em reconhecer formalmente a existência de um cartel com essa denominação.
A mudança na redação da acusação federal reflete, na prática, a dificuldade em demonstrar, de forma jurídica, a existência de uma organização criminosa com personalidade e estrutura típicas de um cartel. Em vez disso, a nova peça concentra-se em imputações individualizadas contra Maduro e seus supostos cúmplices por crimes como narcotráfico, corrupção e associação criminosa.
Mesmo com a revisão terminológica, o Departamento de Justiça manteve as acusações contra Maduro relacionadas ao tráfico internacional de drogas. A denúncia afirma a existência de parcerias entre líderes venezuelanos e grupos armados ou cartéis estrangeiros, citando — no texto do processo — vínculos com guerrilhas e organizações criminosas da Colômbia e do México, e a utilização de corrupção para facilitar o tráfico de toneladas de cocaína destinadas aos Estados Unidos.
Maduro foi detido por forças estadunidenses no último sábado (3 de janeiro de 2026) e compareceu a uma audiência no Tribunal Federal de Nova York. No plano político, Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da Venezuela na terça-feira (6 de janeiro de 2026). Autoridades dos EUA têm exigido acesso aos campos petrolíferos venezuelanos, e representantes americanos vêm afirmando, em fóruns internacionais, a preocupação com a influência de atores externos sobre os recursos energéticos do país.



