sexta-feira, março 27, 2026
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Estudo brasileiro encontra resíduos de plástico em placentas e cordões umbilicais

Uma pesquisa inédita realizada em Maceió, Alagoas, detectou microplásticos em placentas e cordões umbilicais de recém-nascidos. Este estudo é o primeiro do tipo na América Latina e o segundo no mundo a identificar essas partículas em cordões umbilicais. Os resultados foram divulgados na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências.

Os pesquisadores observaram que, embora a placenta seja conhecida por atuar como um filtro natural, na maioria dos casos analisados, as amostras de cordões umbilicais apresentaram uma quantidade maior de microplásticos em relação às placentas. A investigação incluiu amostras de dez gestantes provenientes do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes e do Hospital da Mulher Dra. Nise da Silveira, ambas em Maceió, utilizando a técnica de espectroscopia Micro-Raman para identificar a composição química.

As análises revelaram 110 partículas de microplásticos nas placentas e 119 nos cordões umbilicais. Os principais compostos detectados foram polietileno, utilizado na fabricação de embalagens plásticas, e poliamida, presente em tecidos sintéticos.

Desde 2021, a pesquisa sobre a contaminação por microplásticos durante a gestação está em andamento. Um estudo colaborativo realizado em 2023 com a Universidade do Havaí já havia confirmado a presença dessas partículas em placentas havaianas, destacando um aumento na contaminação ao longo dos anos, passando de 60% das amostras em 2006 para 100% em 2021.

O projeto em Maceió recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas e do CNPQ, sendo focado em mulheres atendidas pelo SUS, visando incluir a realidade da população local. As amostras brasileiras apresentaram menos aditivos químicos quando comparadas às americanas.

A pesquisa ainda não consegue apontar com precisão as fontes de contaminação, embora se acredite que a poluição marinha, reflexo do consumo local de frutos do mar, e a água mineral envasada, exposta à luz solar, possam ser responsáveis.

Os próximos passos da pesquisa contemplam um aumento no número de amostras coletadas, prevendo obter 100 gestantes e analisar as ligações entre a presença de microplásticos e complicações na gestação ou problemas de saúde dos recém-nascidos. Para isso, será criado o Centro de Excelência em Pesquisa de Microplástico, com financiamento da Finep. Os resultados esperados devem ser publicados até 2027.

A preocupação central dos pesquisadores é entender os efeitos da contaminação, uma vez que os recém-nascidos já estão expostos a essas substâncias desde a gestação. Estudos anteriores indicam associações entre certos polímeros e casos de prematuridade, além de evidências de que plásticos, como o poliestireno, podem interferir no metabolismo placentário.

Por fim, o estudo destaca a necessidade de ações políticas e regulamentações governamentais na produção e descarte de plásticos, apontando que medidas individuais mostram-se insuficientes para combater a contaminação ambiental.

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