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Conflitos e Grilagem: Como o Desmatamento Afeta a Fronteira do Cerrado

**Conflitos Agrários Afligem Comunidades Tradicionais no Maranhão**

Povos e comunidades tradicionais do Cerrado, considerados “guardiões” do bioma, enfrentam crescente pressão devido a conflitos agrários resultantes da expansão da fronteira agrícola no Brasil. Localizado a aproximadamente 300 quilômetros do centro de Balsas, o Vão do Uruçu se tornou um dos focos de tensão no Maranhão, onde mais de 20 famílias estão sendo obrigadas a deixar suas terras.

O município é reconhecido como um importante polo do agronegócio brasileiro. Esta situação está sendo acompanhada na série “Fronteira Cerrado”, produzida pela Radioagência Nacional, que investiga as repercussões do desmatamento e de práticas agrícolas sobre os recursos hídricos do país.

Recentemente, uma reunião entre moradores e uma advogada popular foi realizada para discutir as questões fundiárias que impactam as comunidades locais. Os moradores relataram que estão sendo coagidos a aceitarem acordos que limitam a área em que podem trabalhar a 50 hectares, sob pena de serem forçados a deixar a região. Muitos acreditam que o grupo que tenta reivindicar essas terras é composto por grileiros interessados na comercialização para a produção de soja.

Os residentes do Vão do Uruçu também relataram ter enfrentado ameaças, incluindo disparos de arma de fogo perto de suas casas. Há preocupações sobre a segurança na área, com alguns moradores temendo possíveis agressões.

A empresária Sheila Lustosa Parrião, identificada como representante da empresa Castelo Construtora, teria iniciado ações na região em 2020, reivindicando a posse das terras. Em 2023, o Ministério Público do Maranhão a acusou de ordenar a destruição de uma ponte pública que conectava as comunidades locais.

De acordo com o juiz aposentado Jorge Moreno, que coordena o Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra no estado, os conflitos agrários em Maranhão são amplamente disseminados. Ele destacou que todos os 217 municípios do estado estão enfrentando algum nível de violência, assédio e intimidação, muitos, inclusive, resultando em assassinatos de camponeses.

O Maranhão lidera o Brasil em termos de conflitos relacionados à terra e à água, conforme dados da Comissão Pastoral da Terra, com 420 conflitos registrados no ano passado. Em resposta a essa situação crítica, o governo estadual lançou o Programa Paz no Campo em 2023, priorizando a regularização fundiária.

Até o momento, segundo o presidente do Instituto de Colonização e Terras do Maranhão (Iterma), 18 mil títulos de propriedade foram entregues, e 27 comunidades quilombolas conseguiram a regularização de suas terras. O estado reconheceu que a expansão da agropecuária no Cerrado tem contribuído para o aumento dos conflitos fundiários, destacando a necessidade de regularização para pacificar a zona rural.

Além disso, o Iterma tem trabalhado na identificação de 300 mil hectares de terras públicas ainda sem destinação e na recuperação de 150 mil hectares de áreas ocupadas de forma irregular.

Essa problemática vem sendo acompanhada de perto, e a série “Fronteira Cerrado” continuará a explorar os diversos aspectos dessa realidade, buscando trazer à luz os desafios enfrentados por comunidades tradicionais no Cerrado.

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