sexta-feira, março 27, 2026
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Capacitação de enfermeiros em programa de saúde mental gera polêmica

Em resposta ao aumento da demanda por atendimento em saúde mental, um programa piloto vem sendo testado em ao menos duas cidades brasileiras para ampliar o cuidado na atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS).

Desenvolvido pela organização sem fins lucrativos ImpulsoGov, com sede em São Paulo, o Programa de Saúde Mental para Atenção Primária à Saúde (Proaps) está em fase experimental em Aracaju e Santos. A iniciativa treina enfermeiros e agentes comunitários para realizar acolhimento estruturado a pessoas com sintomas leves ou moderados, sob supervisão de psicólogos e psiquiatras da Rede de Atenção Psicossocial ou contratados pela entidade.

O projeto também chegou a ser implementado em São Caetano do Sul (SP), mas foi encerrado pela prefeitura, sem justificativa ao noticiário.

Contexto e metodologia

Levantamentos indicam que a saúde mental é motivo de preocupação para 52% dos brasileiros e que 43% relatam dificuldades de acesso por custos ou demora na rede pública. O Proaps segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do próprio SUS. A formação prevista inclui 20 horas de conteúdo teórico e prevê encaminhamento para a rede especializada quando o caso é classificado como grave.

Os municípios firmaram acordos de capacitação de forma autônoma, conforme o modelo de gestão tripartite do SUS.

Resultados iniciais e impacto

A ImpulsoGov informou que os primeiros resultados apontam redução média de 50% nos sintomas depressivos entre os pacientes acompanhados e indicam impacto na diminuição das filas por atendimento especializado.

Em Aracaju, o programa foi instituído por um acordo de cooperação técnica assinado em 2024 e renovado até 2027. Vinte servidores de 14 unidades concluíram a capacitação no ano passado e realizaram 472 atendimentos iniciais, mais da metade a pacientes em primeiro acesso ao serviço. A prefeitura local registra redução média de 44% nos sintomas depressivos e melhora de cerca de 41% na percepção subjetiva do humor. A rede municipal conta com 28 psicólogos e cinco médicos de saúde mental, que atendem aproximadamente 1.950 pacientes por mês.

Em Santos, o Proaps começou a ser aplicado em outubro de 2025. Entre dezembro e janeiro, 314 usuários foram atendidos segundo a metodologia. A prefeitura avalia ampliar a qualificação para alcançar mais profissionais da atenção primária. A cidade dispõe atualmente de 127 especialistas (98 profissionais de nível superior e 29 médicos) distribuídos em 13 unidades de atenção em saúde mental, incluindo Centros de Atenção Psicossocial e serviços de reabilitação.

Posicionamentos de conselhos e panorama estrutural

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) manifestou preocupação acerca dos limites da delegação de competências, sem avaliar diretamente o programa. O conselho ressaltou que o SUS já utiliza o matriciamento — estratégia multiprofissional que articula saúde mental e atenção primária — e apontou a necessidade de investimentos estruturantes, como fortalecimento dos Caps, ampliação de equipes e contratação de especialistas por concurso público.

Dados do Boletim Radar SUS 2025 citados pelo CFP mostram que o número de psicólogos no país cresceu 160% entre 2010 e 2023, mas a proporção desses profissionais atuando no SUS diminuiu, agravando desigualdades regionais, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) declarou não ter sido previamente informado sobre o projeto. A entidade lembrou que enfermeiros da Atenção Primária recebem capacitação para acompanhar casos leves e moderados e devem encaminhar casos graves aos serviços especializados. O Cofen questionou a definição de “supervisão” prevista no programa e destacou que atividades de competência privativa da enfermagem não devem ser submetidas à supervisão de outras categorias profissionais, indicando semelhanças entre o Proaps e práticas já previstas pela Política Nacional de Atenção Básica, como o apoio matricial.

Posição do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde informou que estados e municípios têm autonomia para implementar ações de qualificação profissional. A pasta também destacou que o Brasil possui uma extensa rede pública de atenção em saúde mental, com mais de 6,27 mil pontos de atenção e cerca de 3 mil Centros de Atenção Psicossocial. Segundo o ministério, o investimento federal na área aumentou 70% entre 2023 e 2025, alcançando R$ 2,9 bilhões em 2025.

Funcionamento prático do programa

Na prática, o Proaps prevê identificação do sofrimento emocional por instrumentos padronizados e decisão sobre acompanhamento local ou encaminhamento. Em casos considerados elegíveis para atenção primária, o protocolo prevê até quatro encontros conduzidos por profissionais capacitados, com base em práticas de acolhimento interpessoal e evidências clínicas.

Situação dos pilotos e próximas etapas

Os pilotos em Aracaju e Santos seguem em avaliação, com indicadores iniciais apontando redução de sintomas e ampliação de acessos na atenção primária. Municípios que testam o modelo estudam a expansão da capacitação, enquanto entidades de classe pedem cautela quanto à delegação de funções e reforçam a necessidade de investimentos para ampliar a oferta de especialistas na rede pública.

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