O embaixador Celso Amorim, assessor especial para Assuntos Internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que a estratégia dos Estados Unidos visa desestabilizar não apenas o Brasil, mas também outros governos progressistas na América Latina, sugerindo uma intenção de subordinar a região à influência americana.
Amorim mencionou que as relações entre os dois países podem ser descritas como um “quase estado de guerra”, em decorrência de ações que, segundo ele, não se pautam por negociações equitativas. Ele citou a relevância da diversificação das parcerias do Brasil para reduzir a dependência da diplomacia dos EUA, pautada na Doutrina Monroe, que historicamente representa a América Latina como uma extensão da esfera de interesses dos Estados Unidos.
O embaixador considerou que a atual administração americana, sob a liderança de Donald Trump, busca reverter o multilateralismo e promover uma nova divisão mundial que prioriza blocos regionais, envolvendo a América Latina. Ele destacou que a Casa Branca não tem agido com diplomacia, mas em apoio a movimentos de extrema-direita globalmente, o que inclui a crítica a governos progressistas.
Amorim ressaltou a importância da diversificação econômica do Brasil, que vai além dos limites do Brics, abrangendo também parcerias com a África, a União Europeia e países asiáticos. Essa diversificação é vista como uma forma de garantir a independência nacional em um contexto internacional mutável.
O embaixador comentou que, segundo informações, a pressão dos EUA para que a China amplie a compra de soja pode impactar as exportações brasileiras, apresentando um cenário de competição desleal. Ele reconheceu a importância do mercado estadunidense, embora atualmente represente apenas 12% das exportações brasileiras, uma queda significativa em comparação aos 24% no começo dos anos 2000.
Amorim também abordou os desafios da integração latino-americana, que enfrenta retrocessos devido ao crescimento da extrema-direita e à dependência econômica de alguns países em relação aos Estados Unidos. Ele destacou as tentativas de revitalizar a integração, citando a criação do Consenso de Brasília, um acordo entre 11 nações sul-americanas estabelecido em 2023 para promover metas comuns.
Sobre o tema da desdolarização, que faz parte das propostas do Brics, o embaixador sugeriu que a mudança para o uso de moedas locais ocorre em resposta à transformação do cenário global. Ele afirmou que a redução da dependência do dólar é uma necessidade que surge naturalmente em um sistema global que está se reconfigurando.
Por fim, Amorim refutou a alegação de que o governo Lula seria anti-americano, lembrando que as gestões passadas do Brasil mantiveram boas relações com os EUA. Segundo ele, existe uma mentalidade de dependência que não deve se manifestar como uma autossabotagem, enfatizando a importância de preservar tanto a integridade territorial quanto a dignidade nacional.



