**Especialistas discutem a caracterização da Venezuela como narcoestado**
As recentes acusações dos Estados Unidos, que apontam o governo venezuelano como um cartel de drogas, têm gerado controvérsias entre especialistas. Embora haja denúncias de envolvimento de militares e autoridades em tráfico de drogas, a noção de que a Venezuela funcione como um narcoestado é considerada exagerada por analistas.
A advogada Gabriela de Luca, consultora sênior da União Europeia para políticas sobre drogas na América Latina, destaca que investigações revelam a participação de indivíduos em esquemas de tráfico, mas não evidenciam uma estrutura governamental centralizada voltada para o narcotráfico. Em sua avaliação, a realidade é mais complexa, com redes dispersas de militares e políticos que facilitam o tráfico em determinadas áreas.
A visita recente do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao Paraguai incluiu declarações severas sobre o governo de Nicolás Maduro, o qual foi descrito como parte de uma organização criminosa operando internacionalmente. No entanto, especialistas como Fulton Armstrong, ex-oficial de Inteligência dos EUA, questionam a credibilidade das acusações, afirmando que a maioria das drogas não passa pela Venezuela, e que a caracterização do Cartel de los Soles carece de fundamento.
Para Robson Rodrigues, coronel da reserva da Polícia Militar do Rio de Janeiro, as atividades criminosas atribuídas ao Cartel de los Soles estão superestimadas. Ele também critica a estratégia militar dos EUA, sugerindo que seria mais eficiente um trabalho de inteligência e cooperação regional para combater o narcotráfico.
A conexão entre autoridades e o narcotráfico não é um fenômeno isolado, sendo relatada em várias nações, incluindo os Estados Unidos. Autoridades americanas têm sido acusadas de envolvimento indireto com narcotraficantes, como demonstrado em publicações recentes.
As primeiras acusações formais sobre a relação de Maduro com o narcotráfico surgiram em 2020, no contexto da política de pressão máxima da administração Trump, que culminou em tentativas de derrubar o governo venezuelano. Até o momento, as autoridades dos EUA aumentaram a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro, alegando que ele é um dos principais narcotraficantes do mundo.
No entanto, o papel da Venezuela no tráfico internacional de drogas é considerado exagerado por instituições como o Washington Office on Latin America (WOLA), que destaca a falta de evidências concretas que sustentem a narrativa de um narcoestado. Segundo a WOLA, a Venezuela funciona mais como uma rota de passagem para drogas provenientes de outros países da América Latina, especialmente a Colômbia.
Por outro lado, líderes de países latino-americanos, como México e Brasil, têm criticado provocações de interferência externa sob a justificativa de combate ao narcotráfico. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou que a luta contra o crime organizado não deve violar a soberania nacional e que a colaboração deve ser feita de forma respeitosa.



