# Novos pontos de saúde buscam reduzir isolamento de ribeirinhos em Carauari, no Amazonas
Moradores de comunidades ribeirinhas de Carauari, no interior do Amazonas, convivem há décadas com dificuldades para acessar atendimento médico. A distância entre a zona rural e a sede urbana do município, somada à dependência do transporte fluvial, historicamente agravou casos de emergência e deixou marcas em famílias da região.
Um dos exemplos é o de Francisco Solivan Peres de Araújo, morador da zona rural e atual presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru). Ele perdeu a mãe quando tinha 2 anos, após complicações no parto de sua irmã, no fim da década de 1980. Na época, o deslocamento até a cidade era inviável para muitas famílias ribeirinhas.
Carauari está entre os maiores municípios do país em extensão territorial, com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados. Banhado pelo Rio Juruá e cercado pela Floresta Amazônica, o município tem comunidades em áreas que podem ficar a horas ou até dias de viagem da sede urbana, onde se concentra a estrutura fixa de saúde. O tempo de deslocamento varia conforme a embarcação e as condições do rio, especialmente nos períodos de seca.
Em uma expedição recente a comunidades da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, o trajeto entre Manaus e Carauari levou cerca de 35 horas em lancha expressa. Depois, foram necessárias mais quatro horas até a comunidade Bauana e outras quatro horas para alcançar áreas próximas à região de Campina.
## Emergências ainda dependem de longos deslocamentos
Até a década de 1990, mortes por falta de atendimento eram mais frequentes na região. Posteriormente, a prefeitura passou a operar um sistema de lanchas de resgate para casos graves e emergenciais. Mesmo assim, moradores ainda enfrentam demora no socorro por causa das grandes distâncias.
Em janeiro de 2019, Adriana da Silva e Silva foi picada por uma cobra na comunidade São José do Nachiqui, às margens da Bacia do Rio Juruá. O atendimento demorou mais de 24 horas, e ela precisou passar por quatro cirurgias em Carauari para evitar a amputação da perna. Desde então, convive com sequelas.
Outro caso ocorreu em 1994, na comunidade Mandioca. O irmão de Raimundo Viana da Cunha, hoje colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), morreu após esperar dias por transporte até a sede do município. Na época, muitas famílias dependiam de embarcações comerciais que passavam pelas comunidades para conseguir chegar à cidade.
A ausência de atendimento próximo também contribuiu para que parte da população deixasse o Médio Juruá ao longo dos anos em busca de melhores condições de saúde na área urbana.
## Território extenso e população dispersa
A RDS Uacari tem 633 quilômetros de extensão, 31 comunidades e pouco mais de 409 famílias. A população vive principalmente do extrativismo, da agricultura familiar e do manejo sustentável de recursos naturais, como pirarucu, látex, andiroba, açaí e ucuba.
A instalação de unidades de saúde em todas as comunidades é considerada um desafio para o poder público, devido ao custo e à logística. Carauari tem cerca de 28 mil habitantes, segundo o último Censo do IBGE, e orçamento estimado em R$ 142 milhões para 2026.
Atualmente, a prefeitura mantém o serviço de resgate por lanchas, com custo mensal entre R$ 40 mil e R$ 45 mil. Também há atendimento por Unidades Básicas de Saúde Fluviais, mas a operação ocorre de forma eventual em razão dos custos elevados.
O Ministério da Saúde informou que tem ampliado investimentos para atender populações ribeirinhas e comunidades em áreas de difícil acesso. Em 2026, estão previstos R$ 500 milhões para implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha. O número de municípios aptos a solicitar serviços específicos para populações das águas passou de 784, restritos à Amazônia Legal e ao Pantanal sul-mato-grossense, para 2.690 em todo o país.
Segundo a pasta, já existem 332 equipes de Saúde da Família Ribeirinha e 71 Unidades Básicas de Saúde Fluviais em regiões atendidas pelo serviço.
## Parceria instala dois pontos de atendimento
Na última semana, uma parceria entre a Prefeitura de Carauari e organizações da sociedade civil viabilizou a instalação de dois novos pontos de saúde nas comunidades Bauana e Campina.
A iniciativa, chamada SUS na Floresta, foi selecionada em edital do programa Juntos pela Saúde. O projeto é executado pela Fundação Amazônia Sustentável (FAS), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane. A gestão é do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), com apoio técnico da prefeitura e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.
As duas estruturas devem atender 56 comunidades ribeirinhas e beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas com serviços de atenção primária.
Cada ponto conta com consultórios para atendimento presencial e remoto, sala de triagem, consultório odontológico, internet, equipamentos de telessaúde e espaços para permanência das equipes. A proposta é integrar os atendimentos ao Sistema Único de Saúde (SUS).
## Primeiros atendimentos
Na primeira semana de funcionamento, os novos pontos receberam moradores da região em busca de atendimento básico. Entre os casos registrados, houve o atendimento a uma criança ferida por anzol e a uma criança com quadro grave de desnutrição, acompanhada pela equipe de enfermagem da unidade de Campina.
A expectativa das equipes envolvidas é que a presença de atendimento primário mais próximo das comunidades reduza a necessidade de resgates por lancha e permita que pacientes cheguem à sede municipal apenas em situações de maior gravidade, já estabilizados.
Apesar do avanço, moradores e organizações locais avaliam que ainda há necessidade de ampliar a rede de atendimento dentro da RDS Uacari e também na Reserva Extrativista do Médio Juruá, separadas pelo rio, mas habitadas por populações com demandas semelhantes.
A manutenção das novas estruturas, o financiamento contínuo e a permanência de equipes de saúde em áreas remotas seguem como os principais desafios para garantir assistência regular às comunidades ribeirinhas de Carauari.



