Há mais de 20 anos o Brasil forma mais mulheres com doutorado do que homens, mas elas continuam em minoria entre os professores de graduação e pós-graduação. Além disso, recebem cerca de um terço das bolsas de produtividade destinadas a pesquisadores de maior destaque na carreira acadêmica.
O fenômeno conhecido como “efeito tesoura” — o declínio proporcional de mulheres conforme a carreira avança — tem efeitos ainda mais acentuados sobre pesquisadoras que são mães. A ausência de contagem oficial sobre pesquisadores com filhos no país dificulta a mensuração completa desse impacto.
Dados do movimento Parents in Science
O movimento Parents in Science, criado em 2016 por sete pesquisadores (seis mães e um pai), reúne mais de 90 cientistas, em sua maioria mulheres, e vem produzindo levantamentos sobre parentalidade na ciência. Em uma análise com cerca de mil docentes de pós-graduação, o grupo avaliou a entrada e a permanência na docência, um processo que passa por credenciamento periódico baseado em produtividade (artigos, participações em eventos, orientações etc.).
O estudo revela diferenças marcantes entre pais e mães no descredenciamento. Entre os pais, 43,7% deixaram voluntariamente o programa e 37,5% foram descredenciados por perda de produtividade. Entre as mães, 24,6% saíram a pedido, enquanto 66,1% foram descredenciadas por não alcançarem a produção mínima exigida.
A reinserção ao sistema também é mais difícil para as mães: entre as pessoas que saíram por perda de produtividade, 38% das mães não conseguiram retornar, contra 25% dos pais. Entre os que saíram voluntariamente, 25% das mães não retornaram, frente a 7,1% dos pais.
O levantamento do Parents in Science também aponta intersecções com raça e outras barreiras: mulheres negras, pardas e indígenas estão entre as mais sub-representadas, e mães de crianças com deficiência ocupam menos espaços acadêmicos.
Desafios desde a graduação
As dificuldades começam já na graduação. Em universidades federais existem auxílios estudantis voltados a mães, mas em geral com valores modestos e prazos limitados. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, concede auxílio-educação de R$ 385 mensais até a criança completar seis anos.
Coletivos de mães em universidades têm funcionado como rede de apoio e fonte de informação sobre direitos e benefícios. Experiências individuais convertidas em pesquisa acadêmica têm mostrado como a presença ou a ausência de políticas institucionais impacta a permanência das estudantes e pesquisadoras mães.
Atlas da Permanência Materna
O Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade publicou o Atlas da Permanência Materna, um mapeamento das políticas oferecidas pelas universidades federais. Entre 69 instituições analisadas, 63 oferecem assistência financeira para mães estudantes, com valor médio em torno de R$ 370 mensais.
O levantamento aponta queda acentuada desses benefícios na pós-graduação: apenas 13 das universidades estendem o auxílio a alunas de mestrado e doutorado. Só oito instituições disponham de cuidotecas — espaços para atenção às crianças enquanto as mães estudam. Em março, o Ministério da Educação lançou um edital de R$ 20 milhões para implantar cuidotecas em outras unidades.
Editais e medidas de fomento
Em 2024 a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), em parceria com o Parents in Science e o Instituto Serrapilheira, lançou o primeiro edital de financiamento especificamente voltado a mães pesquisadoras, apoiando 134 pesquisadoras. Está prevista uma nova edição para março do ano seguinte, e outras fundações estaduais, como a do Pernambuco, têm planos de iniciativas similares.
Como medida compensatória em editais gerais, a Faperj ampliou o período de avaliação curricular: candidatas que tenham se tornado mães nos cinco anos anteriores à inscrição têm os currículos avaliados em um período de sete anos, em vez dos cinco usuais.
Programas institucionais
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) lançou o programa Aurora. O primeiro edital prevê até 300 bolsas para que professoras de pós-graduação gestantes ou mães possam incorporar à equipe um pesquisador de pós-doutorado. A ideia é manter a continuidade das pesquisas e das orientações durante períodos como licença-maternidade, reduzindo a interrupção da produção acadêmica.
Mudanças legislativas
Houve também avanços legislativos recentes. Em julho de 2024 foi sancionada lei que prorroga em seis meses os prazos de conclusão de cursos de graduação e pós-graduação em casos de gestação de risco, parto, adoção ou guarda judicial de criança; o prazo de bolsas também pode ser estendido nesses casos.
Em abril de 2025 entrou em vigor norma que proíbe a discriminação baseada na maternidade em processos de seleção e renovação de bolsas. A legislação veda perguntas sobre maternidade em entrevistas e amplia em dois anos o período considerado na avaliação de produtividade quando a candidata esteve em licença-maternidade.
Panorama
As iniciativas descritas — pesquisas, editais específicos, programas institucionais e leis — têm como objetivo reduzir obstáculos que levam à evasão e ao menor reconhecimento das pesquisadoras mães. O conjunto de medidas busca aumentar a permanência feminina na carreira acadêmica e mitigar desigualdades evidenciadas pelos levantamentos recentes.



