terça-feira, maio 12, 2026
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Pesquisa revela que 53% das famílias raramente leem para crianças

Um estudo internacional da OCDE, divulgado nesta terça-feira (5), mostra que 53% das famílias brasileiras raramente ou nunca leem livros para crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola nas três unidades da federação avaliadas: Ceará, Pará e São Paulo.

Na amostra desses estados, apenas 14% dos responsáveis realizam leitura compartilhada entre três e sete vezes por semana. A média internacional para essa prática é de 54%.

A pesquisa, intitulada Aprendizagem, bem‑estar e desigualdades na primeira infância em 3 estados brasileiros: Evidências do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS), avaliou 2.598 crianças distribuídas em 210 escolas — 80% públicas e 20% privadas.

Metodologia e recorte
Por limitações orçamentárias, a coleta de dados no Brasil ocorreu apenas nesses três estados. O IELS-2025 organiza a avaliação em três áreas do desenvolvimento infantil: aprendizagens fundamentais (linguagem e raciocínio matemático), funções executivas (atenção, controle de impulsos, memória de trabalho e flexibilidade mental) e habilidades socioemocionais (empatia, confiança e comportamento pró-social).

As crianças foram testadas individualmente por meio de atividades lúdicas e interativas — jogos e histórias adaptadas à faixa etária. Foram aplicados também questionários a famílias e professores sobre aprendizagens, desenvolvimento e comportamento.

Literacia e numeracia iniciais
No domínio da literacia emergente, o Brasil registrou média de 502 pontos, ligeiramente acima da média internacional de 500. Nesse aspecto, houve pouca variação entre os diferentes níveis socioeconômicos.

Já na numeracia emergente, o desempenho médio brasileiro foi de 456 pontos, 44 pontos abaixo da média internacional. O estudo aponta desigualdades marcantes: 80% das crianças de nível socioeconômico alto reconhecem numerais, percentual que cai para 68% entre crianças de níveis socioeconômicos mais baixos.

Recortes por raça, gênero e renda
O Brasil foi o único país participante a apresentar recorte racial dos resultados. A análise revela desigualdades acumuladas relacionadas a gênero, raça e condição socioeconômica. Meninos, crianças pretas, pardas, indígenas e de menor nível socioeconômico apresentaram piores desempenhos ao final da pré‑escola.

Crianças pretas, filhas de famílias beneficiárias de programas sociais e de baixa condição socioeconômica tiveram as pontuações mais baixas na maioria das dimensões avaliadas, com destaque para memória de trabalho e noções de matemática. A diferença entre crianças brancas e pretas chegou a 17 pontos no domínio da linguagem e a 40 pontos em numeracia.

Uso de telas e atividades educativas digitais
O levantamento identificou ampla difusão de dispositivos digitais entre crianças pequenas: 50,4% usam computador, notebook, tablet ou celular diariamente, excluindo televisão — acima da média internacional de 46%. Apenas 11,4% afirmaram nunca ou quase nunca utilizar telas.

O estudo encontrou associação entre uso diário de telas e desempenho médio inferior em compreensão de leitura, escrita e noções de matemática. Também revelou baixa frequência de uso educativo desses aparelhos: 62% das crianças raramente ou nunca realizam atividades educativas em dispositivos digitais, enquanto 19% o fazem entre três e sete vezes por semana.

Atividades ao ar livre e estimulação familiar
Somente 37% das famílias relataram frequência regular de atividades ao ar livre, abaixo da média dos países do IELS (46%). Quase 29% disseram não realizar esse tipo de atividade ou fazê‑la menos de uma vez por semana. O levantamento aponta barreiras que podem explicar esse cenário, como custo, tempo, disponibilidade local de equipamentos culturais e áreas verdes, e hábitos familiares.

Quanto às interações que estimulam o desenvolvimento, 56% das famílias afirmaram conversar sobre sentimentos com as crianças entre três e sete dias por semana — percentual inferior à média internacional, que chega a 76%. Os domínios relacionados à empatia apresentaram pontuações superiores à média internacional: 501 pontos em atribuição de emoções e 491 em identificação de emoções.

Funções executivas
As médias brasileiras nos três domínios de funções executivas — memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental — ficaram abaixo da média internacional, com diferenças classificadas como moderadas a grandes. A memória de trabalho foi a mais sensível ao nível socioeconômico, apresentando uma diferença de 39 pontos entre crianças de níveis alto e baixo.

Participação e financiamento
O segundo ciclo do International Early Learning and Child Well‑being Study incluiu Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Malta e Inglaterra. O Brasil foi o único país da América Latina a participar desta fase. No país, a pesquisa contou com o apoio de um consórcio de instituições liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Os resultados em larga escala fornecem subsídios para o desenho e a adaptação de políticas públicas voltadas à primeira infância nas áreas de educação, saúde e proteção social.

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