terça-feira, abril 28, 2026
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Iniciativa oferece tratamento gratuito para doenças negligenciadas no Amazonas

Diagnosticado pouco depois de completar 20 anos, o seringueiro Augusto Bezerra da Silva, hoje com 65 anos, conviveu por décadas com a Doença de Jorge Lobo (lobomicose), enfermidade rara que o levou a interromper o trabalho e a viver em isolamento no interior do Acre.

A lobomicose é causada por um fungo que provoca lesões nodulares semelhantes a queloides em áreas como orelhas, braços e pernas. A exposição ao sol tende a agravar os quadros, que costumam provocar dor, coceira e inflamação. A doença é endêmica na Amazônia Ocidental e tem impacto social e psicológico significativo, levando muitos pacientes a se retirarem do convívio comunitário em razão do estigma.

Dados do Ministério da Saúde registram 907 casos até o momento, dos quais 496 foram identificados no Acre. A enfermidade atinge sobretudo populações ribeirinhas, povos originários e trabalhadores extrativistas, grupos com limitado acesso a serviços de saúde.

Para enfrentar a carência de diagnóstico e tratamento, o Ministério da Saúde lançou o projeto Aptra Lobo, que acompanha 104 pacientes com lobomicose na Região Norte e busca estruturar o manejo da doença no Sistema Único de Saúde (SUS). O programa atua nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia e integra assistência, pesquisa clínica e geração de evidências para subsidiar diretrizes no SUS.

O projeto é coordenado pelo Hospital Israelita Albert Einstein em parceria com a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), no âmbito do Proadi-SUS. Entre as medidas adotadas estão a padronização do fluxo de atendimento, a realização de biópsias e exames laboratoriais em áreas remotas, acompanhamento clínico trimestral e cirurgias para retirada de lesões em casos selecionados.

O tratamento baseia-se no antifúngico itraconazol, fornecido pelo SUS, com dosagem ajustada individualmente. Segundo os relatórios do programa, mais de metade dos participantes apresentou melhora nas lesões.

O projeto também envolve equipes locais responsáveis pela identificação de casos, diagnóstico e tratamento segundo as diretrizes estabelecidas. O acesso às comunidades ribeirinhas permanece como principal desafio, devido à distância e à configuração geográfica; por isso, são oferecidos auxílio-financeiro para transporte e expedições às localidades mais isoladas. O acompanhamento dos pacientes conta com apoio de centros de referência em Rio Branco, Manaus e Porto Velho.

No caso do seringueiro acreano, o ingresso no Aptra Lobo e o início do tratamento gratuito resultaram em redução significativa das lesões no rosto e na retomada de contatos familiares, embora a cura total ainda não tenha sido alcançada.

Em dezembro do ano passado, o projeto lançou um manual com ferramentas práticas para melhorar diagnóstico, tratamento e prevenção da lobomicose, além de fortalecer a capacidade de acolhimento e cuidado das populações afetadas. O documento é apontado como o primeiro instrumento sistematizado para orientar a abordagem clínica de uma doença historicamente negligenciada.

Os próximos passos previstos incluem a análise dos dados dos pacientes tratados com itraconazol e a elaboração de um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), com previsão de lançamento em 2026. O objetivo é consolidar ações que deixem um legado duradouro para o atendimento adequado aos afetados e reduzir o caráter de negligência em relação à Doença de Jorge Lobo.

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