A guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz têm reacendido preocupações sobre a segurança energética global e evidenciam fragilidades na cadeia de combustíveis do Brasil. O tema foi tratado no livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro, lançado nesta semana pelo ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli e publicado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).
A obra reúne análises sobre os impactos do conflito no comércio de petróleo e gás. Relatos e dados citados no contexto das discussões destacam ataques a instalações produtoras de gás, construções de grandes refinarias no Oriente Médio (entre elas projetos na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã) e a concentração de destino das exportações do Golfo Pérsico na China e na Índia. Também são apontadas mudanças nas formas de pagamento e nas rotas de transporte, com efeitos sobre o papel do dólar no mercado energético.
Em nível global, prevê-se uma reconfiguração da oferta de petróleo nos próximos anos. Estudos e estimativas citados na obra indicam que Brasil, Canadá e Guiana podem acrescentar cerca de 1,2 milhão de barris por dia à produção em 2027, o que tende a alterar os fluxos de suprimento para grandes importadores asiáticos com capacidade de refino.
No plano doméstico, o livro aponta restrições estruturais do Brasil no refino. Entre os dados apresentados estão a interrupção de projetos de ampliação do parque de refino em meio às investigações da Operação Lava Jato e à resistência de grandes companhias internacionais. Historicamente, o país teve expansão reduzida de capacidade: entre 1980 e 2014 não foram abertas novas refinarias, com a inauguração da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco, ocorrida apenas em 2014. Planos anteriores da Petrobras previam a construção de cinco refinarias, das quais apenas uma foi concluída.
As limitações no refino deixam o mercado interno dependente de importações, especialmente de diesel, cuja demanda atendida por importações está estimada entre 20% e 30%. Mudanças na política de distribuição e abastecimento também ampliaram a participação de importadores privados. No governo Temer, foram autorizadas cerca de 300 empresas a importar derivados. Durante os governos Temer e Bolsonaro, a carga operada nas refinarias da Petrobras chegou a operar em torno de 50% da capacidade. Em 2023, a utilização voltou a subir, alcançando patamares próximos de 93%, ainda assim insuficientes para suprir integralmente a demanda nacional. O comportamento dos importadores costuma estar atrelado a diferenças entre preços internacionais e domésticos, o que influencia o fluxo de entradas conforme a conveniência comercial.
Sobre a transição energética, o livro examina o papel do hidrogênio, em especial o hidrogênio verde, como alternativa para reduzir emissões em setores intensivos em carbono. Atualmente, o maior consumo de hidrogênio ocorre em refinarias e na produção de fertilizantes. Para que o hidrogênio verde avance em escala industrial, são considerados necessários mercados de demanda estruturados e políticas públicas que incentivem sua adoção em setores como siderurgia, cimento, transporte pesado e aviação.
Desafios técnicos também são ressaltados: a molécula do hidrogênio tem custo e complexidade de transporte elevados, o que favorece a produção próxima ao ponto de consumo. Além disso, há potencial de integração com biocombustíveis e de conversão para combustíveis sintéticos — por exemplo, produção de metanol a partir do hidrogênio, que pode ser utilizado para fabricar gasolina, diesel e querosene de aviação sem petróleo.
Também são citadas projeções de mercado segundo as quais o hidrogênio verde poderia assumir papel relevante na matriz de combustíveis por volta de 2035, desde que medidas de estímulo e decisões de política sejam tomadas com antecedência.
O lançamento do livro retoma o debate sobre segurança energética, capacidade de refino e as estratégias necessárias para conciliar fornecimento imediato de combustíveis com a transição para fontes de menor carbono.



