Os Estados Unidos e Israel esperavam obter uma mudança de regime no Irã em poucos dias. No entanto, a forte resistência das forças militares iranianas e os danos significativos sofridos por Israel levaram à negociação de um cessar-fogo, que também atendia aos interesses de Teerã.
Essa análise foi feita pelo major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica e ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal. Ele afirma que, uma vez que o principal objetivo político da mudança de regime não foi alcançado, as forças envolvidas na operação enfrentaram uma derrota.
O general ressaltou que a operação “Leão em Ascensão” foi planejada por Israel e Estados Unidos desde setembro de 2024, desmistificando a ideia de que Israel atuava sozinho. O nome da operação tem uma conotação com um grupo opositor iraniano, a Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano, que tem o leão como símbolo.
O planejamento envolveu eliminar figuras chave, como cientistas e líderes militares iranianos, com a esperança de estimular uma insurreição popular contra o governo, apoiada por operativos infiltrados treinados pela Mossad e pela CIA.
A intenção era neutralizar a defesa aérea do Irã em três a quatro dias, permitindo uma campanha aérea eficaz. Contudo, o plano falhou, pois, em um curto intervalo, o Irã conseguiu restabelecer seu sistema de defesa, comprometendo a superioridade militar esperada para um bombardeio continuado.
No dia seguinte, o Irã respondeu de forma contundente, disparando mísseis balísticos que causaram danos substanciais em várias cidades israelenses, gerando até interrupções comunicacionais. O custo elevado da defesa aérea israelense, estimado em US$ 4 milhões por míssil, foi um fator que complicou ainda mais a situação.
Diante da escalada do conflito, Israel, preocupado com a reação da população e os altos custos, buscou intermediação com os EUA. A intervenção do ex-presidente Donald Trump levou a um acordo de trégua, que beneficiou ambos os lados, uma vez que o Irã também sofreu com a ação militar.
Em relação ao bombardeio das instalações nucleares iranianas, Costa considera que essa ação foi mais uma estratégia midiática para justificar o encerramento do conflito, apresentando os EUA como a solução, enquanto, na realidade, são parte do problema.
Ao final do conflito, tanto Israel e Estados Unidos quanto o Irã reivindicaram vitórias. Os primeiros alegaram ter neutralizado aspectos do programa nuclear e de mísseis do Irã, enquanto o governo iraniano afirmou ter forçado um cessar-fogo. No entanto, o especialista aponta que os objetivos principais não foram alcançados, já que os programas iranianos não foram destruídos e permanecem, em certa medida, intactos.
O major-general argumenta que a verdadeira meta era promover uma mudança de regime para um governo mais favorável ao Ocidente, visando o acesso a importantes reservas de gás e petróleo da região. Para ele, uma guerra é considerada vitoriosa quando seus objetivos políticos centrais são atingidos, algo que definitivamente não ocorreu neste caso.
Ao final, enfatiza que, apesar de suas fragilidades, o regime iraniano conseguiu se manter e pode considerar o desfecho um triunfo. Ele também indica que o conflito revela uma disputa geopolítica mais ampla, onde o crescimento do bloco BRICS se contrasta com a luta dos EUA para manter sua relevância estratégica.
A guerra de 12 dias alterou paradigmas no Oriente Médio, marcando um limite para a impunidade israelense nas operações da região e desafiando a suposta superioridade tecnológica do bloco ocidental frente a potências emergentes.



