Pesquisadores brasileiros publicaram, em 29 de dezembro de 2025, o maior estudo mundial sobre os efeitos do vírus Zika na infância. O trabalho, assinado pelo Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio), reuniu dados de 12 centros de pesquisa e analisou 843 crianças nascidas entre janeiro de 2015 e julho de 2018 nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste.
O objetivo do estudo foi uniformizar informações provenientes de diferentes coortes, descrever os casos e delinear o espectro da microcefalia associada ao Zika vírus. A pesquisa foi divulgada no periódico PLOS Global Public Health.
Achados principais mostram que a microcefalia ao nascimento ocorreu em 71,3% das crianças do conjunto, sendo 63,9% desses casos classificados como graves. A microcefalia de instalação pós-natal foi observada em 20,4% dos casos.
Outros dados clínicos e demográficos apontaram prematuridade em um intervalo entre 10% e 20% dos casos e baixo peso ao nascer em média de 33,2% (variação de 10% a 43,8%). Malformações faciais e cervicais foram frequentes: epicanto em 40,1%, proeminência occipital em 39,2% e excesso de pele no pescoço em 26,7%.
As alterações neonatais e de desenvolvimento neurológico foram marcantes. Cerca de metade das crianças apresentou déficit de atenção social. A prevalência de epilepsia variou entre 30% e 80%, com média de 58,3%. Persistência de reflexos primitivos foi registrada em 63,1% da amostra.
Comprometimentos sensoriais também foram comuns. Alterações oftalmológicas chegaram a 67,1% dos casos, enquanto problemas auditivos foram menos frequentes, porém presentes.
Exames de neuroimagem revelaram calcificações cerebrais em 81,7% das crianças, ventriculomegalia em 76,8% e atrofia cortical em aproximadamente metade da amostra. O estudo descreve um padrão de lesão característico associado ao Zika: em muitos casos o cérebro apresentava crescimento aparentemente normal durante a gestação, seguido de degeneração celular e colapso estrutural, distinto das microcefalias causadas por outras etiologias.
O trabalho também registrou alta mortalidade entre as crianças afetadas e apontou que as sobreviventes, atualmente com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam dificuldades de inclusão escolar, em razão de paralisia cerebral grave, déficit de atenção e transtornos de aprendizagem.
Em termos de recomendações, o estudo reitera que não existe tratamento antiviral específico para a infecção por Zika. Entre as medidas preventivas indicadas estão a redução da exposição a áreas com circulação do mosquito Aedes aegypti durante epidemias e o uso de barreiras físicas e repelentes. Para as crianças nascidas de mães expostas ao vírus, mesmo sem microcefalia ao nascimento, o documento enfatiza a importância da estimulação precoce — fisioterapia, fonoaudiologia e intervenções educativas — como forma de potencializar a neuroplasticidade e melhorar prognósticos.
Os autores defendem atenção multidisciplinar ao longo da vida para crianças com acometimento do sistema nervoso central e apontam lacunas no acesso a serviços especializados no Sistema Único de Saúde, o que gera elevada carga para as famílias.
O acompanhamento das coortes seguirá para avaliar os impactos do Zika no desempenho escolar e no desenvolvimento neuropsicomotor da geração nascida entre 2015 e 2018. Os pesquisadores também destacam a necessidade de avanços em sorologia confiável e no desenvolvimento de uma vacina para mulheres em idade reprodutiva.



