terça-feira, março 31, 2026
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UNAIDS afirma que combater desigualdades pode diminuir o risco de pandemias

O Conselho Global sobre Desigualdades, Aids e Pandemias lançou nesta semana a versão em português do relatório “Rompendo o ciclo da desigualdade — pandemia — construindo a verdadeira segurança na saúde em uma era global”.

O documento foi apresentado em Brasília, durante a 57ª Reunião da Junta de Coordenação do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), encontro que deverá orientar a estratégia global contra a Aids para 2026–2031 e seguir para negociações com os países do G20. O Brasil preside atualmente o conselho do UNAIDS.

O relatório alerta para a queda abrupta na assistência internacional observada nos últimos anos, citando, entre outras reduções, cortes de financiamento externos que afetaram recursos destinados ao controle, tratamento e pesquisa da Aids.

Baseado em dois anos de pesquisas e encontros realizados em vários países, o estudo apresenta evidências de que desigualdades sociais e econômicas favorecem o surgimento e a propagação de surtos. Segundo o relatório, esse fenômeno cria um ciclo vicioso em que pandemias ampliam desigualdades e, por consequência, dificultam respostas nacionais e internacionais, tornando crises sanitárias mais longas, letais e disruptivas.

O documento lista exemplos históricos desse padrão, incluindo crises como as da Covid-19, HIV/Aids, Ebola, Influenza e Mpox. Também identifica fatores de risco e indica ações para respostas mais eficazes a futuros surtos.

Entre as evidências reunidas, o relatório destaca que pessoas com níveis educacionais mais baixos tiveram até três vezes maior probabilidade de morrer por Covid-19 do que aquelas com ensino superior. Populações negras, indígenas e moradores de favelas e periferias apresentaram taxas superiores de infecção e mortalidade. A análise aponta ainda impacto desproporcional sobre as mulheres, especialmente negras, citando aumento da mortalidade materna de 57,9 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2019 para 110 em 2021, chegando a 194,8 entre mulheres negras.

O estudo observa que o aprofundamento das desigualdades nos últimos cinco anos foi acelerado pela pandemia de Covid-19, em um período de maior concentração de renda. Isso ocorre justamente quando começam a surgir nas redes de saúde tecnologias inovadoras, como injeções de longa duração para prevenção do HIV, cujo acesso e difusão continuam condicionados a fatores econômicos.

O relatório também reforça que atrasos no combate a pandemias amplificam seus impactos no desenvolvimento. Como consequência, a persistência de doenças endêmicas e epidemias — incluindo Aids, malária e tuberculose — é apontada como uma das maiores ameaças à segurança sanitária global.

Para romper o ciclo entre desigualdade e pandemias, o Conselho propõe quatro recomendações alinhadas à abordagem de Prevenção, Preparação e Resposta (PPR): 1) reorganizar o sistema financeiro global, com renegociação de dívidas, revisão de linhas e instituições de financiamento de emergência e eliminação de políticas de austeridade pró-cíclicas; 2) investir na prevenção dos determinantes sociais das pandemias por meio de mecanismos de proteção social; 3) fortalecer a produção local e regional de vacinas e insumos, criar nova governança em pesquisa e desenvolvimento e tratar o compartilhamento de tecnologias como bem público essencial; e 4) construir maior confiança, equidade e eficiência na resposta por meio de redes de governança multissetoriais envolvendo sociedade civil e governos.

A ex-ministra da Saúde e pesquisadora da Fiocruz Nísia Trindade contribuiu com o relatório e assinou um artigo complementar, em que reforça a necessidade de sistemas de saúde resilientes, investimentos contínuos em políticas sociais, ciência e inovação, e fortalecimento da produção local e regional de vacinas, testes e medicamentos. O relatório também defende mecanismos automáticos de financiamento de emergência e instrumentos para aliviar o peso da dívida em países vulneráveis.

A publicação em português visa ampliar o alcance das recomendações e apoiar a formulação de políticas nacionais e multilaterais voltadas à redução das desigualdades como medida central para prevenir e enfrentar futuras pandemias.

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